O perigo chama-se Vítor Gaspar

O País parece um enorme hospício. Passos Coelho desmentiu hoje as afirmações feitas há uma semana por Marques Mendes sobre os cortes dos quatro mil milhões de dólares na saúde, segurança social e educação, como se alguém acreditasse que o comentador não tivesse recebido essas informações do próprio governo. Diz Passos que nada está decidido, mas acrescenta que tudo tem que estar “pronto” até Fevereiro.

Se o que Passos Coelho diz ainda fosse importante poderia perguntar-se porque esperou até agora para desmentir Marques Mendes. Mas já se percebeu que Passos diz o que ouve a Vítor Gaspar, simplesmente não deve perceber tudo e só depois de as coisas passarem para o exterior é que ele vem emendar a mão.

Gaspar é quem manda, já o sabíamos. Manda sozinho, os restantes ministros, incluindo o primeiro, são apenas o seu eco. Por isso o que importa é ouvir Gaspar, perceber-lhe as “manhas” discursivas, a mal disfarçada arrogância intelectual  com que impinge aos deputados das Comissões Parlamentares onde comparece as teorias bebidas nos seus tempos de funcionário europeu, que tenta agora experimentar em Portugal em colaboração com os seus colegas da troika.

A prestação de Gaspar, ontem, na  comissão parlamentar de acompanhamento do Memorando de Entendimento, foi  um exercício de “professor” para “alunos”, do género daqueles com que certamente cala os seus pares nos conselhos de ministros que, deslumbrados com tanta sabedoria, não ousam questioná-lo. Aliás, as suas idas às comissões parlamentares com discursos escritos e gráficos infindáveis são uma espécie de trabalho de casa para Passos e os restantes ministros visionarem, decorarem e repetirem.

Ontem, Vítor Gaspar fez o que sempre faz: usou a teoria  para justificar uma coisa e o seu contrário. Veja-se:

“A revisão dos limites do défice está em linha com as recomendações da teoria da política macro-económica” (…) as recessões, associadas com crises financeiras são tipicamente caracterizadas por contracções mais significativas e recuperações mais lentas da actividade económica (…) seria ilusório e enganador esperar uma solução rápida para este tipo de crise”. (…)

Depois, os floreados e as palavras escolhidas escondem mal a sua visão autoritária mascarada de abertura ao diálogo:

A nossa hipótese de trabalho para os cortes de despesa que estamos dispostos a discutir com profundidade com todos os partidos e com os parceiros sociais parte do princípio que serão realizados no actual quadro constitucional” (…).

A teoria tanto justifica as decisões como explica os falhanços das decisões nela inspiradas:

Em situação de crise, as previsões macroeconómicas tendem a ser menos precisas em termos qualitativos e quantitativos”, (…) “vivemos numa situação em que prevalecem riscos e incertezas muito consideráveis”, (…)  as “perspetivas de evolução da economia europeia [são] singularmente incertas“.

“(…) [o ajustamento português] “vai demorar anos para se assegurar uma posição orçamental prudente“, (…)  “serão necessárias algumas décadas para atingir níveis de endividamento público abaixo 60% [do PIB] previstos no Tratado de Lisboa”.

“(…) o objetivo de atingir um défice estrutural de 0,5% do PIB “não será atingido antes de 2015” (…) só a partir de 2014 é que o Estado conseguirá assegurar excedentes primários capazes de reduzir a dívida pública.

Finalmente, a fazer-se de virgem ofendida:

“A repetição da insinuação de que eu e o Governo estamos a defender uma estratégia ao serviço de interesses estrangeiros é inaceitável e insultuosa” (…) “ não existe nenhuma subordinação a interesses que não sejam os nacionais”. (…) “É possível discordar das opções do Governo sem entrar na vulgaridade e baixeza de política”.

Haverá maior “vulgaridade” e “baixeza política” do que dizer uma coisa hoje, amanhã outra, errar todos os indicadores e não assumir os erros, comportando-se como um iluminado que não ouve ninguém porque ninguém nunca compreenderá a sua infinita sabedoria e competência?

Gaspar diz que  não está ao serviço de Merkel e da troika. Talvez esteja ao serviço de uma por si imaginada “ciência económico-financeira”, à espera de descobrir como é que destruindo  o País o pode depois “refundar”.

Este homem é perigoso!

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