Reparei também que há mais uma marca branca, com preços inferiores aos da primeira marca “da casa”, que abrange não apenas os produtos básicos mas também alguns “luxos” que antes encontrava apenas em marcas reconhecidas.
Ontem, no cabeleireiro, tive direito a “brushing” grátis porque tinha atingido um certo número de “pontos”, pelo que só paguei o “spray” para as “pontas”. ..
O supermercado é frequentado por pessoas tipo “classe média” daquelas que vão às compras, em vez de encomendarem pelo telefone ou mandarem as empregadas carregar com os sacos. Conferem preços, lêem as etiquetas e fazem contas. Quanto ao cabeleireiro, tem os seus clientes certos, que vão desde uma vedeta da televisão a um ex-chefe militar, e a empregadas dos bancos aqui da rua. Todos são do tipo “classe média”.
“Não podemos perder os nossos clientes, queremos que continuem a sentir-se felizes e bem consigo mesmos”, disse-me a moça do cabeleireiro …
Estes episódios remeteram-me para o artigo de de César das Neves, na sua coluna do DN desta segunda-feira, onde escreve:
“(…) Aquilo que mais aflige as análises comuns é a terrível sorte dos mais pobres. Mas não são os pobres os mais afectados pela crise, como se vê bem em alguns indicadores esquecidos. As taxas de desemprego das pessoas sem graus de escolaridade ou com o primário continuam abaixo das do terceiro ciclo e secundário, os quais são quase metade dos desempregados. Mesmo as medidas de austeridade vêm com uma ressalva para os rendimentos inferiores. O peso da crise está pois a cair na classe média. Muitos que tinham certa prosperidade estão agora a apertar o cinto, ou mesmo a cair na pobreza. Aliás são esses que protestam: funcionários, professores e outros profissionais dominam a contestação ao governo.
É importante notar que este facto não reduz, antes aumenta o sofrimento. A pobreza é sempre dramática, mas a pior vem quando a queda na miséria se faz a partir do conforto. O embate, surpresa, desajustamento são muito maiores, precisamente porque essas pessoas nunca conheceram a privação. Em geral domina a vergonha e o desespero. Não só ignoram os apoios disponíveis, mas os próprios mecanismos de assistência identificam ou lidam mal com casos que surgem de lados inesperados. Esta nova e inesperada pobreza é muito mais grave que a endémica, precisamente por ser inusitada. Estado e empresas têm dificuldade em reagir. (…)”
Seja ou não a mais atingida pela austeridade, sem a “classe média” que vai ao supermercado e ao cabeleireiro, paga à empregada, mete gasolina no carro, vai ao cinema e uma vez por ano faz um fim de semana num hotel, na Serra ou junto ao mar, o que acontecerá aos que prestam e fornecem os bens e serviços que essa “classe média” consome?
Tudo isto parece egoísta e politicamente incorrecto. Mas os factos estão aí para demonstrar que há uma realidade social em mudança…
A “classe média” ainda existe?