Vemos e lemos mas não sabemos

Há acontecimentos cuja explicação nunca chega verdadeiramente ao conhecimento dos cidadãos apesar de serem largamente noticiados e em alguns casos vistos “em directo” pelas televisões. Claro que aqueles que estudam a sociologia dos media e a psicologia das multidões sabem que no caso dos directos televisivos o que os telespectadores vêem não é a “realidade” mas apenas fragmentos da realidade.

Vem isto a propósito de dois acontecimentos ocorridos nas últimas semanas, largamente cobertos e discutidos nos media, dos quais existem todos os dias novos elementos, verdadeiros  ou inventados, que alteram ou completam as versões conhecidas.

Um desses acontecimentos, o mais recente, foi a intervenção da polícia na manifestação frente à Assembleia da República no dia de greve geral. Elogiada por políticos, comentadores e cidadãos da chamada”comunidade virtual”, a resposta  policial ao apedrejamento de que foram alvo os polícias que protegiam o Parlamento tem vindo a ser objecto de “revelações” que introduzem elementos para uma reescrita e reinterpretação dos acontecimentos.

Fotografia © Natacha Cardoso – Global Imagens

Primeiro, foram as dúvidas sobre se havia ou não “agentes infiltrados” na manifestação  (que o ministro Miguel Macedo negou veementemente no próprio dia a uma repórter que lhe fez a pergunta); depois, foi a identidade dos encapuçados que, segundo notícias, incluíam claques de futebol. Surgiram ainda reportagens que deram voz a pessoas “apanhadas” pela carga policial que foram parar ao hospital, apesar de dizerem nada terem feito a não ser estar no caminho dos manifestantes e da polícia. Finalmente, advogados dos que foram detidos vieram dizer que a lei não foi cumprida.

O segundo caso, foi recuperado este domingo pelo provedor dos leitores do jornal Público e diz respeito ao jornalista Nuno Ferreira detido nos Açores no dia da posse do novo governo regional, acusado (pela polícia) de ter agredido um segurança do ministro Relvas quando  tentava aproximar-se  do quarto do hotel onde o ministro pernoitava, depois de ter dirigido ao ministro algumas provocações no restaurante do hotel e na rua (neste caso, ostentando um cartaz) . O jornalista diz que o agredido foi ele quando se dirigia para o seu quarto  situado no mesmo hotel e no mesmo piso  do quarto do ministro. As notícias incompletas e desencontradas sobre o assunto deram origem a uma apaixonada discussão entre jornais e jornalistas.  Hoje, o provedor regressou ao caso para responder a uma carta do “gabinete do ministro”, ofendido com  a referência negativa do  provedor à sua “fia­bi­li­dade, cre­di­bi­li­dade e transparência”.

Ora, num caso, como noutro, fica-se com a noção de que há ainda coisas a contar sobre  os dois acontecimentos, o que não impede que persistam algumas perplexidades causadas pelas  reacções de quem, em cada um dos casos, apoiou ou criticou  cada um dos lados (ou o que deles foi contado).

Por exemplo, quanto aos “polícias infiltrados” na manifestação: a perplexidade não é a de que tenham lá estado, mas sim que o ministro o tenha negado (a não ser que não soubesse mas nesse caso mais valia ter dito que desconhecia). Mutatis mutandis, também os jornalistas recorrem a técnicas equivalentes à “infiltração”, quando usam  “câmara oculta” para, em nome do interesse público,  obterem informação e acederem a locais ou a pessoas que com a sua verdadeira identidade não conseguem.

Mais incompreensível se afigura a notícia de que foi  o ministro da Administração Interna a “autorizar” a carga policial. Pensava eu que essa decisão caberia ao comando da polícia, que não só tem competência técnica e funcional para o efeito, como estaria melhor colocado, até fisicamente, para poder tomá-la.

Do que vimos e lemos, como aconteceu e porque aconteceu, não sabemos…

Quanto ao jornalista Nuno Ferreira as versões contraditórias não cederam nos argumentos mas a perplexidade, neste caso, resulta de se achar natural, ou pelo menos não digno de reparo que um jornalista, ainda que não esteja no exercício de funções, se dirija a um governante e lhe pergunte se “não tem vergonha” de andar por ali … e depois lhe faça ainda uma “espera” na rua, de cartaz em punho …

Sempre ouvi os jornalistas dizerem que quando se é jornalista se é jornalista toda a vida…Ora parece-me que um jornalista não provoca ministros mesmo nos tempos livres…

Também aqui falta perceber parte da história.

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2 respostas a Vemos e lemos mas não sabemos

  1. João Paulo, na minha opinião, um jornalista que passou a fazer assessoria de imprensa teve de depositar a sua carteira profissional visto que as funções são incompatíveis, logo, deixou de ser jornalista. Pode regressar ao jornalismo mas é obrigado a cessar a assessoria. O jornalista é um cidadão com direitos e pode naturalmente exercer esses direitos. Mas não me parece que dirigir provocações a um agente político, por exemplo, a um governante que se encontra em funções, mesmo que o jornalista não esteja no momento em trabalho profissional, seja aceitável vindo de um jornalista, tanto mais que cabe ao jornalista escrutinar as acções dos agentes políticos. Se em vez de uma provocação fosse um elogio ou uma atitude equivalente eu pensaria o mesmo, visto que não considero que seja exercer um direito de cidadania um jornalista dirigir-se a um governante para o ofender ou louvar.

  2. joão paulo meneses diz:

    Olá Estrela. Concordo com mais de 90 por cento das coisas que leio aqui, mas desta vez gostaria de partilhar uma discordância: os direitos de cidadania sobrepõem-se naturalmente aos deveres de jornalista. Um jornalista que por exemplo passou a fazer assessoria de imprensa continua a ser jornalista?

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