Nem os jornalistas são auxiliares das polícias nem as polícias deviam ser bancos de imagens das televisões

Nada melhor para compreender o jornalismo do que observar, ouvir e ler o que dizem, escrevem e pensam os próprios jornalistas. E nada melhor do que fazer essa observação nas próprias redacções. Chama-se a esse método de investigação em sociologia  “observação participante” e o observador não pode observar-se a si próprio nem interferir no trabalho dos observados.

Adelino Gomes, ele próprio jornalista, utilizou este método na sua tese de doutoramento e publicou em livro partes da sua “observação participante” (não encontrei o livro nas livrarias mas socorro-me de uma pré-publicação, saída esta semana na revista Notícias TV).

As partes abaixo reproduzidas, passadas em 2007, não podiam ser mais actuais. No seu “Diário de Campo”  Adelino Gomes relata as relações que se estabelecem entre “as televisões” e “organismos policiais” no que se refere a cedência e captação de imagens de certos acontecimentos. Nos casos observados por Adelino Gomes foram,  nuns casos, os “organismos policiais” a cederem as imagens selectivamente às televisões, noutros, a convidarem as televisões a acompanharem, à vez, determinadas operações policiais.

Podemos imaginar como se criam relações de cumplicidade e de “troca” entre polícias e jornalistas úteis a ambas as partes, as quais  em determinados momentos podem descambar e tornar-se incontroláveis.

Não pretendo  fazer juízos apriorísticos sobre o que se passou na RTP com as imagens dos incidentes frente ao Parlamento. Mas este relato ajuda a perceber uma realidade que organismos policiais e jornalistas conhecem muito bem.

Se é certo que os jornalistas não são auxiliares das polícias, do mesmo modo  as polícias não deviam ser bancos de imagens dos jornalistas. 

Leiam-se então estes excertos do “Diário de Campo” de Adelino Gomes:

(…)

(…)

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4 respostas a Nem os jornalistas são auxiliares das polícias nem as polícias deviam ser bancos de imagens das televisões

  1. Pingback: ADELINO GOMES CONTINUA A PÔR O DEDO NA FERIDA por clara castilho « A Viagem dos Argonautas

  2. Obrigada, caro Nuno, vou corrigir. Abç.

  3. Nuno Azinheira diz:

    Cara Estrela, apenas uma correção. A pre-publicação exclusiva não saiu na TV Mais, mas sim na Notícias TV, revista de televisão do DN e do JN. Fui eu próprio que lancei o convite ao Adelino Gomes. E ele aceitou, coisa que muito me honrou.

  4. António da Silva Coelho diz:

    Não sou jornalista, nem polícia. Sou portanto neutro em relação ao assunto! No entanto sou leitor, ouvinte ou espectador , daí achar inadmissível a RTP (não sei quem lá dentro!) fornecer, a pedido não sei de quem, (embora não seja difícil adivinhar quem) a gravação dos lamentáveis acontecimentos na manif frente à AR! Este acto foi, quanto a mim, uma traição cometida em relação aos manifestantes, que eventualmente serão visíveis na gravação da RTP! Resumindo e concluindo, como a Estrela Serrano sustenta, nunca deveria haver conivência entre os jornalistas e a polícia!

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