VAI E VEM

Um discurso à medida das possibilidades…

Quando leio ou ouço os discursos do primeiro-ministro sinto logo necessidade de ir consultar uma gramática da língua portuguesa para ver se encontro enquadramento para a semântica das  palavras e das  frases que o primeiro-ministro atira para o ar e para os microfones.

Este domingo, no Funchal, saíram-lhe algumas pérolas dirigidas não se sabe bem a quem:

Posso bem com aqueles que pensam diferente de mim e posso bem com aqueles que acham que estamos a seguir um caminho de austeridade excessiva” (…) “muita gente supôs que se podia viver de forma contínua acima das suas possibilidades (…)”.

Neste passo,  é um primeiro-ministro ao estilo “Zé povinho” empertigado, peito aberto às balas, irritado com os que não pensam como ele e o vaiaram nessa tarde,  como quem diz “chego para vocês e se for preciso vou-lhes ao  focinho”. Só lhe faltou fazer o manguito…

E logo a seguir:

(…) “muita gente supôs que se podia viver de forma contínua acima das suas possibilidades (…)”.

Mas quem é essa gente, afinal, sempre tão presente no seu discurso? Serão os seus amigos  Catroga e António Borges? Serão aqueles que o seu governo poupou aos cortes nos salários? Ou os assessores  a quem pagou os subsídios de férias que cortou aos funcionários públicos e pensionistas? Quem é que viveu “de forma contínua acima das suas possibilidades”? O senhor primeiro-ministro vive acima das suas possibilidades? Comprou a sua casa a pronto-pagamento ou  pediu empréstimo ao banco?   

Continuou o primeiro-ministro:

“Claro que hoje sabemos que quem mais acesso tem à televisão e quem mais vocalmente contesta o que estamos a fazer são aqueles que têm mais” (…).

Mas os que “mais acesso têm à televisão” e os que “têm mais” são precisamente os seus amigos…aqueles a quem o governo dá notícias em primeira-mão, entre os quais, Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa que dia sim, dia não, o “contestam vocalmente” na TVI, para parecerem independentes. 

E outra vez o primeiro-ministro:

aqueles que foram “acumulando privilégios e nunca acreditaram que na hora de fazer as contas também tivessem de contribuir para o resultado que o país inteiro precisa de alcançar”…“os que têm pensões de 240 euros não fazem debates nas televisões” (…

Por onde andará o primeiro-ministro que não sabe que “os que foram acumulando privilégios” continuam a acumulá-los porque o seu governo tem medo que fujam com o dinheiro para fora do País?

E sobre  os que “têm pensões de 240 euros” não “fazerem debates”, Salazar não diria melhor.  Não fazem debates porquê? Porque o primeiro-ministro não os vê na televisão? Ou porque acha que são ignorantes e estúpidos? Experimente andar a pé ou nos transportes públicos que logo os encontra…e, se tentar falar-lhes,  logo presenciará o “debate” que merece!

O primeiro-ministro está tão obcecado com o viver dos portugueses “acima das suas possibilidades”, que dá o exemplo “falando” abaixo das suas possibilidades e obrigando quem o ouve a baixar também as  possibilidades de aguentar os seus  discursos.

 

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