A política vista do lado da academia

 professores-universitariosNesta altura do ano lectivo sucedem-se as provas para obtenção de graus académicos.  Nas universidades e escolas superiores quase não chegam as salas e os professores para tanto júri. Hoje, tive o gosto de arguir uma dissertação de mestrado sobre a cobertura jornalística das eleições legislativas de 2009. A candidata era uma jovem de 24 anos. Retenho o caso, porque hoje em dia é raro que os jovens se interessem por investigar temas relacionados com a política e os partidos.

Vou ter ainda duas  arguições ligadas aos novos media e ao jornalismo. São “trabalhos de projecto”, modalidade surgida nos mestrados de “Bolonha”, que veio constituir-se como alternativa à  “Dissertação” (modelo de antes de “Bolonha”, embora actualmente mais reduzido). Em algumas escolas é também permitida a apresentação de um  “Relatório de estágio”.

Confesso que não aprecio os mestrados do modelo “Bolonha”.  Cada prova em que participo deixa-me um amargo de boca, ora porque, como orientadora, exigi de menos, ora porque, como arguente, exigi demais.

A tese de hoje era uma dissertação quase como as de “antes de Bolonha”. Com uma bibliografia exaustiva e metodologia adequada, a candidata utilizou a análise crítica do discurso para fazer a desconstrução do discurso jornalístico da imprensa sobre os  cinco candidatos a essa eleição – José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã – detendo-se na tematização, enquadramento, representação dos protagonistas, imagens, léxico, gramática e retórica.

É uma análise de desocultação de discursos sobre outros discursos, de uma campanha em que a cobertura se deteve nos “escândalos” da altura, com destaque para as “escutas a Belém”;  em soundbites como  a “asfixia democrática”; no humor dos “Gato Fedorento esmiúça os sufrágios”; em estereótipos como  o “profissionalismo” e o “carisma” de Sócrates versus   a “austeridade” e o “anti-mediatismo” de Ferreira Leite, em que os discursos jornalísticos reforçavam os perfis antagónicos dos dois principais candidatos.

É sempre gratificante olhar a política e os partidos do lado da academia, no momento em que no discurso oficial  a educação e a investigação científica se tornaram descartáveis, e em que o discurso dos governantes envergonha, pela substância e pela forma.  

 

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