Tiques de autoritarismo

Quando esta sexta-feira vi no semanário Sol e no diário i o comunicado da Newshold na íntegra e ocupando uma página inteira em cada um destes jornais,

SOL Comunicado Newsholdi comunicado Newsholdlembrei-me dos primeiros  anos da revolução, quando o Diário de Notícias publicava os comunicados dos partidos políticos e das forças sociais que então detinham o poder na sociedade. Eis um exemplo de um título do DN, de 1976:Comunicados dos partidos DN 1976

Percebe-se o  zelo: a Newshold é como Deus, está em toda a parte – Angola, Portugal, Panamá…

A Newshold precipitou-se e deu o flanco. Depois do comunicado em que anuncia o seu interesse na RTP, acenando que dinheiro não lhe falta e chamando preguiçosos aos jornalistas por não saberem quem são os seus accionistas cujos nomes afirma serem conhecidos da CMVM, eis que esta vem desmentir os seus administradores  e pedir-lhes que “enquanto accionista de referência da Cofina a Newshold divulgue quem são os seus accionistas directos e indirectos”.

É um grave lapso  (para dizer o menos) que veio acrescentar  dúvidas às que já existem sobre a  idoneidade e transparência da Newshold. Não é crível que os administradores não soubessem que a Newshold não está cotada em bolsa e que os nomes dos seus accionistas não constam da CMVM.

Também a agressividade e a exibição do seu poder económico são no mínimo chocantes. O tom do comunicado tem, aliás, tiques de autoritarismo que não abonam a favor de quem se julga em condições de se tornar detentora do serviço público de televisão.

As acusações de colonialismo e xenofobia contidas no comunicado e dirigidas aos que criticam as omissões sobre quem são os accionistas da Newshold padecem, elas sim, de colonialismo  e pretendem apenas intimidar e calar os críticos. É caso para dizer: começa cedo…

Quisesse a Newshold comprar um supermercado ou um centro comercial e não teria certamente opositores. Seria até muito bem vinda como foram e são investidores angolanos que fazem negócios em Portugal. Se os portugueses quisessem comprar a televisão  angolana imagina-se o que escreveria, por exemplo, o jornal de Angola (a avaliar pelos artigos que tem dedicado a Portugal)?

Não começou bem e continua mal o processo de privatização/concessão da RTP. O governo e os seus “advisers” para a RTP (como os citou  o primeiro-ministro) deviam olhar para este comunicado e interpretar o que ele diz e não diz.

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