A demagogia barata e a falta de rigor do primeiro-ministro (actualizado)

Passos e pensionistasO primeiro-ministro é sempre muito pouco rigoroso nos seus discursos. Cada vez que fala lança confusão e não raras vezes fala sem conhecer os assuntos de que fala.

Hoje, veio novamente atirar poeira para os olhos dos mais incautos e insultar os pensionistas que têm pensões  acima de 600 euros. Quando cita  “aqueles que não descontaram na proporção que estão a receber e que têm pensões muito elevadas”, refere-se a quem? E o que são, em sua opinião, “pensões muito elevadas”? E “não descontaram na proporção do que estão a receber, porquê? Quem não lhes fez os descontos devidos?

E quando pergunta “Por que é que 87% dos pensionistas não foram afectados” pelos cortes nas pensões” e dá a resposta  “Porque têm pensões inferiores a 600 euros, muitos deles fora do regime contributivo, quer dizer, nunca descontaram e têm que ser o Estado e os contribuintes de hoje a poder dar-lhes o mínimo para poderem viver com o mínimo de dignidade”, está a fazer demagogia barata porque aqueles que descontaram uma vida inteira o que lhes era devido não são responsáveis pelos 87% de que fala o primeiro-ministro. 

Se, como o primeiro-ministro disse, há 5% dos pensionistas, que são mais de metade do regime público, que recebem em média muito mais do que o dobro e na sua maioria não descontaram na proporção do que recebem hoje”, porque não identifica que grupos são esses em vez de meter tudo no mesmo saco? Refere-se aos pensionistas que acumulam várias pensões? Entre esses talvez encontre alguns dos seus amigos políticos a quem  o seu governo não teve coragem de diminuir regalias.

E sobre as comparações entre pensionistas do sector público e do sector privado, saberá o primeiro-ministro, por exemplo, que enquanto os reformados da função pública nem uma senha de presença podem receber como membros de órgãos sociais de instituições públicas, ao passo que os pensionistas do sector privado as recebem pelas mesmas funções nessas  instituições? E saberá que os pensionistas do sector público não podem dar aulas remuneradas em instituições públicas, ao passo que os do sector privado podem ser pagos como qualquer professor, acumulando com a pensão?

Saberá o primeiro-ministro do que fala?

A diatribe do primeiro-ministro contra os reformados esconde mal a sua fúria contra a notícia do Expresso sobre a hipótese de o Presidente  enviar alguns artigos do orçamento de 2013 para o Tribunal Constitucional, nomeadamente os que afectam os pensionistas.

Não podendo “investir” contra o Presidente, o primeiro-ministro ataca os mais fracos, isto é os pensionistas que têm a ousadia de pensar que têm direito a receber o que entregaram ao Estado enquanto trabalharam.

É que antes de Passos Coelho o Estado por muitos defeitos que tivesse era uma entidade confiável. Com Passos Coelho, o Estado tornou-se uma entidade sem vergonha e sem dignidade.

Actualização, às 21h00 de 17 de Dezembro de 2012

Pessoa amiga enviou-me o seguinte esclarecimento:“não há diferença nas decretadas incompatibilidades dos pensionistas da FP e nos reformados do regime geral. (…) A (brutal) verdade dos factos é esta: o actual Governo “nacionalizou” todos os velhos deste país. Oriundos da FP ou oriundos do privado, todos foram proibidos de acumular qualquer provento (permanente ou esporádico) se proveniente de Estado ou de empresas públicas. Tudo isto assenta, como é óbvio, na compulsiva obsessão punitiva dos rapazes (e outros com idade já para terem juízo) em quem nós, portugueses, livremente votámos. Parece que o argumento oficial é que reformados não podem estar a roubar postos de trabalho aos mais novos. Concordo com o princípio. Mas a ser assim, seriam proibidos vínculos contratuais. (…)” 

Outro amigo diz-me que é pensionista da Segurança Social,  nunca trabalhou no sector público, é membro de um órgão social de uma empresa pública e também não pode receber senha de presença. 

Não há dúvida, como escreve o primeiro amigo, “o governo nacionalizou todos os velhos deste País”!

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6 respostas a A demagogia barata e a falta de rigor do primeiro-ministro (actualizado)

  1. José Couto Nogueira diz:

    Acho que não foi com Passos Coelho que o Estado se tornou uma entidade sem vergonha e sem dignidade. Bem estaríamos nós se a falta de carácter do Estado tivesse ano e meio! Pode recuar pelo menos até Sócrates; pode mesmo recuar até Cavaco Silva. Claro que aí entraríamos numa discussão do que será vergonha e dignidade… Mas, aceitando as definições geralmente aceites, assim que acabaram os governos “ideológicos” começaram as jogadas, as mentiras, as meias-verdades, a falta de pudor. À medida que os anos passam e a inimputabilidade aumenta, é natural que a vergonha e dignidade diminuam.

  2. Esta questão vem dividir os portugueses, numa altura em que os reformados “ricos” estão a ser chamados a contribuir. Até agora, eram os pensionistas do Estado e os reformados do sector privado, a quem foi confiscado o subsidio de férias e de Natal, que contribuiam para o “saco” de Gaspar. Muitos dos que agora se queixam, estavam calados, e até aplaudiam o corte daqueles subsídios. E quem são estes? Será o Catroga, o Cavaco, o Bagão, a Manuela? Ou será o patrão do BIC, que ficou com uma reforma de 18.000 euros por ter trabalhado na CGD apenas 19 meses? O professor Marcelo anotou a “canelada ao Presidente”, dada pelo PM. Deve haver muito boa gente (ex-deputados, ex-ministros, ex-gestores de empresas públicas) que, têm uma reforma superior áquilo que descontaram. Não tomo a defesa de Passos Coelho. Mas haverá por aí muita boa gente a receber chorudas reformas, sem que tenham descontado durante 40 anos. Não contando com as pensões dos bancários que foram transferidas para as contas do Estado..

  3. Fernando Lopes Domingos Dias diz:

    O Senhor Primeiro Ministro que vá perguntar a muitos dos que recebem a reforma minima se descontaram sempre do vencimento que recebiam a resposta será não eu ainda hoje conheço pessos a descontar sobre o minimo e a recber muito mais essas pessoas deviam era deixar de receber enquanto não repusessem o que falta

  4. EGR acho que o problema é mesmo muito mais grave: o primeiro-ministro não conhece o país nem os temas de que fala.

  5. EGR diz:

    O Senhor Primeiro Ministro dá sinais, cada vez mais evidentes, de desorientação.
    Só isso, quero crer, pode explicar o conjunto de afirmações que hoje fez.
    Se assim não for o problema é muito mais grave do que possa parecer.

  6. Nem mais. Este 1º é uma vergonha!

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