Não se apaga um passo em falso apagando a história desse passo

a TSF e o Expresso decidiram retirar das respectivas  páginas na internet os conteúdos relacionados com Artur Baptista da Silva, o falso funcionário da ONU que nos últimos dias agitou os meios políticos e jornalísticos após entrevistas e debates em que afirmou que a ONU propõe a renegociação da dívida portuguesa.

Desmascarado o auto-intitulado economista e membro da ONU, apresentadas  as devidas desculpas dos jornalistas que lhe deram crédito e visibilidade, fica contudo a questão de saber se a decisão de retirar os registos sobre Baptista da Silva das edições online é a mais correcta. Em minha opinião, como afirmei aqui, relativamente à TSF, considero que não é. Em meu entender, a atitude adequada seria manter as peças emitidas, juntando-lhes os esclarecimentos posteriores.  Explico porquê:

–  o episódio existiu, foi divulgado, não é possível apagá-lo da história dos meios de comunicação social que o criaram ou o acolheram. Como tantos outros, positivos ou negativos, que marcam a história dos media, este não fugirá a esse destino;

–  as peças sobre Baptista da Silva perdurarão na edição impressa do Expresso, Expresso Artur Baptista da Silva o que confundirá os investigadores e os próprios jornalistas que queiram reconstituir o caso;

– retirar as peças da edição electrónica retira credibilidade e rigor às edições electrónicas dos media, parecendo que os erros cometidos pelos próprios  são apagados enquanto erros cometidos por outros permanecem;

– a volatilidade que caracteriza os conteúdos web, patente  nas redes sociais e nos blogs, não  justifica que as edições digitais dos meios tradicionais não conservem as notícias publicadas, independentemente das necessárias actualizações que a internet permite (e a que obriga);

– se o apagamento de notícias oriundas de erros cometidos pelos próprios meios se torna prática habitual, daí resultará  prejuízo para o rigor e a credibilidade da informação jornalística; 

– a retirada das peças acaba por ser útil ao infractor que assim vê apagado o registo público do seu condenável acto;

– o caso Baptista da Silva ultrapassou em grande escala os media tradicionais. Nos blogs e nas redes sociais foi largamente comentado e analisado. Na maioria dos casos, existem nesses sítios links para as peças emitidas. No Youtube, existe um vídeo da sua intervenção no programa Expresso da Meia Noite. Dificilmente o seu rasto será apagado na internet;

– seria irónico e mau para o jornalismo que a história deste caso tivesse de ser feita com recurso a outras fontes que não àquelas onde ele nasceu e se desenvolveu.

 

 

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8 respostas a Não se apaga um passo em falso apagando a história desse passo

  1. RUI SIMÃO diz:

    INTEIRAMENTE DE ACORDO; COM EFEITO, SE O QUE DISSE, É JÁ SOBEJAMENTE (RE)CONHECIDO COMO PURO SENSO COMUM, SE CALHAR O ÚNICO DEFEITO QUE SOBRA, É O FACTO DE, AO PROFERIR AS TAIS AFIRMAÇÕES, SE TER ARROGADO UM(OU MAIS) TÍTULOS ACADÉMICOS / PROFISSIONAIS; MAS, SE CALHAR, SEM ESSES TÍTULOS, NÃO LHE TERIAM DADO O TEMPO DE ANTENA/JORNAL, QUE LHE DERAM!
    MAS, SERÁ QUE NISTO DE INVOCAR TITULOS ACADÉMICOS, COMO CONDIÇÃO PARA AMPLIFICAR AS SUAS AFIRMAÇÕES, ENTROU EM TERRENO “VIRGEM”?
    ENTÃO E OS OUTROS? OS DO DOMINGO, DAS EQUIVALÊNCIAS, E QUEJANDOS?

  2. Artigos científicos há para todos os gostos. E, nos últimos sete ou oito anos, a corrente dominante é a que aponta para a dificuldade em apagar o nosso rasto na Web. Há duas obras incontornáveis sobre o tema: Bell, Gordon & Jim Gemmell (2006), Total Recall: How the E-Memory Revolution Will Change Everything, New York: Dutton e Mayer-Schonberger, Viktor (2009), Delete: The Virtue of Forgetting in the Digital Age, New Jersey: Princeton UP.

    “Social Media” é um anglicismo evitável até porque não distingue as redes sociais tecnologicamente mediadas das que não o são. Na medida em que o termo “Web” já penetrou no vocabulário da comunidade científica nacional, penso que “Web social” é a expressão mais feliz. Até porque se inscreve na história da evolução do medium: Web > Web 2.0 > Web social.

    E repito: o YouTube também é uma rede social.

  3. Vicente Silva diz:

    Num país em que o cidadão é diàriamente embarretado

  4. João Pedro, a volatilidade dos conteúdos web é uma referida em artigos científicos, por exemplo, na análise de blogs. Tem razão quanto ao conceito de “rede social” contudo, pretendi distinguir entre blogs e redes sociais como o Twitter e o Facebook. A investigação académica também o faz. O conceito mais abrangente é talvez “social media”.

  5. JOAQUIM JORGE diz:

    Nem me tinha apercebido de quem era . Quem me chamou à atenção foi um jornalista do EXpresso. O Sr. Artur Baptista tinha-me escrito uma carta há tempos. Eu achei interessante e publiquei-a nessa data : http://clubedospensadores.blogspot.pt/2012/05/declaracao-de-interesse-participativo-e.html

  6. Há aqui uma contradição entre a volatilidade que identifica nas redes sociais (os blogues são uma rede social, pelo que não faz sentido dizer “as redes sociais e os blogs”) e a dificuldade que proclama em apagar um rasto no YouTube que é, também ele, uma rede social.

    Na verdade, a tentativa do Expresso em apagar seja o que for da Web será condenada ao fracasso: para além da memória cache do Google, há imensa gente (como eu) que tem os conteúdos do Expresso gravados e que poderá carregá-los para a Web quando o intender. Veja-se o caso recente do aeiou que apagou recentemente todos os blogues do Weblog: bastaram algumas semanas para que os mesmos voltassem a aparecer noutro servidor.

    A Web não é volátil. É, pelo contrário, bem mais perene que o papel.

  7. ignatz diz:

    gostava era de os ver rebater os argumentos do dito aldrabão, no expresso da 1/2 noite eram 4 e a contra-argumentação ficou-se por um elogio à política económica do botas e uma tentetiva de confusão com taxas de juros. o nicolau já assumiu o barrete, faltam os outros 3 charlatões assumirem a incompetência. já agora poderiam tamém verificar as habilitações literárias declaradas pelos restantes intervenientes, o neto tem um curso industrial e tratam-no por engenheiro, os outros não sei, mas pela conversa devem ter andado em escola similar à do relvas.

  8. Emílio Oliveira diz:

    Concordo. Acrescento que a maioria das informações e opiniões do entrevistado são partilhadas por largos sectores das pessoas informadas. E não só. De qualquer modo, ele disse muito menos mentiras do que Pedro Passos Coelho na sua alocução natalícia.

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