A senhora Lagarde julga que somos parvos

Expresso Christine LagardeEste excerto da entrevista da directora do FMI, Christine Lagarde, ao Expresso, é bem revelador da aventura em que  o País está metido. Quando questionada pelo “maior avanço nestes 18 meses de programa” da troika, Lagarde repete a cartilha de Gaspar e Passos, agora também contrariada pelo Presidente na sua mensagem de Ano Novo.

De facto, aquilo a que Lagarde chama “maior avanço” só existe na cabeça do ministro das Finanças (Passos limita-se a segui-lo) e da troika. “As reformas estruturais” são uma ficção: o “mercado de trabalho” não existe porque não há “mercado” nem  “trabalho”, há é desemprego e desempregados em dimensão  nunca vista. E quanto à  “consolidação orçamental” é o confisco aos funcionários públicos e aos pensionistas mais umas engenharias financeiras com fundos de pensões ou vendas de empresas à pressa e ao primeiro que aparece.

Diz a senhora Lagarde que há um sentimento colectivo de que existe uma saída e que tem de ser feita conjuntamente”. Parece conversa da treta. O sentimento colectivo que existe é  o de que não é possível “uma saída” com as políticas impostas pela troika nem, muito menos, com o “ir além da troika”, como fez e continua a fazer o bom e servil aluno Passos Coelho, sob orientação de Gaspar. Quanto a “ser feita conjuntamente”, a senhora Lagarde não deve saber que o governo não fala com a oposição, que atraiçoou a concertação social violando compromissos aí assumidos e que se está nas tintas para o Presidente da República. Portanto, o “conjuntamente”  abrange apenas o governo e  a troika”.

Quanto à resposta à pergunta do Expresso sobre qual  “a maior desilusão“, Lagarde aponta o desemprego, tal como Gaspar que também disse que não esperava tal efeito. E “desilude-se” também com o crédito às empresas e as “rendas excessivas nos sectores não transacionáveis”.

Em vez de dizer que está desiludida, era mais útil e decente que a senhora Lagarde usasse o seu poder como directora-geral de uma das instituições que emprestam dinheiro a Portugal para obrigar o  governo a corrigir aquilo que a “desilude”, em vez de vir dar música aos portugueses com uma entrevista melíflua para diminuídos mentais.

Mas o mais interessante, é a frase – “o facto de não termos previsto a inconstitucionalidade de algumas medidas propostas no ano passado também foi uma infelicidade”. Repara-se no plural majestático “não termos previsto”…  mas quem tem de conhecer a Constituição da República Portuguesa não é governo português? Ao que isto chegou!

E Lagarde parece não ter sido informada (pelo menos para corrigir essa parte da entrevista, se a deu antes de 1 de Janeiro) de que a questão da constitucionalidade de normas do orçamento não são “águas passadas”, ao contrário do que disse ao Expresso. Este ano (espera-se) há mais…

Estes pequenos excertos da entrevista da directora-geral do FMI são uma amostra  da tragédia em que a troika e o governo meteram Portugal, com um programa cego aplicado  por um governo impreparado, sem experiência política, dominado por um técnico sem provas dadas na  governação, que não conhece o País real, habituado a trabalho de gabinete e a fórmulas académicas. Teve a sorte e nós o azar de ter sido escolhido (depois de muitos terem recusado) entrar num governo em que o primeiro-ministro não tem capacidade política nem conhecimentos nem experiência para travar o seu perigoso experimentalismo.

Quando e se regressarmos aos mercados, o único grande objectivo do Governo,  o financiamento de que necessitaremos será para reconstruir o País que Passos e Gaspar entretanto destruíram. 

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5 respostas a A senhora Lagarde julga que somos parvos

  1. Fernanda Vaz Teixeira Ribeiro diz:

    Regressar aos mercados após a destruição do país? Para quê ? Criação de uma nova divida externa?

  2. José Baeta,e há os que preferem ver o mundo a preto e branco…entre a Lagarde e o Batista da Silva não encontram alternativa…

  3. Assim é, regressar aos mercados mas primeiro destruir o País.

  4. EGR diz:

    Ah o “famoso regresso aos mercados”! Ainda ontem ouvi uma notavel entrevista do Prof. José Gll a Antena 1,em que a dado passo, ele perguntava: e depois? ainda ninguém explicou para que é isso vai sevir.

  5. José M. Baeta diz:

    Há fundamentalmente dois tipos de pessoas. As que, querendo saber que tempo faz amanhã, consultam o boletim meteorológico e as outras, as “alternativas” e “fracturantes”, normalmente com um “je ne sais quoi” de “New Age”, que preferem ir consultar o horóscopo. Para assuntos de “política económica” as primeiras dão atenção a Christine Lagarde, as segundas preferem Artur Baptista da Silva.

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