Quem decidiu que a política tem de ser uma chicana permanente?

debates Antena 1Ouvi esta manhã um excelente debate na Antena 1 integrado na discussão sobre o “modelo de Estado social para o futuro”,  que a rádio pública tem vindo a realizar esta semana. O debate foi moderado pela jornalista Maria Flor Pedroso e teve participação de Freitas do Amaral, Francisco Louçã, Eduardo Paz Ferreira e Jorge Reis Novais.

Não sei se o governo e os deputados, directamente ou através dos seus assessores, estão a seguir estes debates, que outras estações também têm realizado. Se não estão, é pena porque têm sido discussões muito ricas, levantando questões e apontando soluções com argumentos substantivos que raramente ouvimos em debates parlamentares ou em comunicações proferidas em conferências.

Foi um prazer e uma oportunidade para reflexão ouvir Freitas do Amaral e Francisco Louçã, os dois intervenientes mais mediáticos, confrontarem pontos de vista, por exemplo, sobre o direito ao serviço nacional de saúde para ricos e para pobres, ou Reis Torgal sobre os critérios de apreciação da constitucionalidade de propostas, como a do FMI, de despedir milhares de professores. E ouvir Paz Ferreira recordar a “esquecida” origem da crise financeira e desmistificar a questão da dívida dos países.

Qual a diferença em ouvir estas personalidades e ouvir os debates entre deputados nas sessões plenárias ou nas audições parlamentares? É fácil encontrar resposta a esta pergunta, comparando, por exemplo, as recentes intervenções de Louçã no Parlamento, ainda como líder do BE, e Louçã, professor catedrático (como foi, e bem, apresentado neste debate pela joprnalista).  Ou comparar Freitas como ministro e, para os que ainda se lembram, como candidato em debates eleitorais ou como líder do CDS.

A diferença é abissal e está na substância e na forma.  Sem deixar de ser política e de reflectir a ideologia dos seus autores, há substância e conhecimento na argumentação de cada um, qualquer que seja o ponto de vista exposto. Não há demagogia nem sound-bites. Cada um sabe escutar o outro e reflectir, ali mesmo, em directo, sobre a pertinência do que é dito por outros e a explicação para a aceitação ou a negação de argumentos.

Porque é que entre deputados, governantes e membros de partidos não é possível uma discussão assim? Quem decidiu que a política tem de ser uma chicana permanente?

É uma pena que assim seja mas sê-lo-á fatalmente também no debate parlamentar sobre a reforma do Estado proposta pela maioria.  E, já agora, convém reparar que o facto de este ter sido um debate em directo para todo o País, com intervenção de ouvintes e internautas, não lhe retirou substância nem representou qualquer constrangimento aos participantes. Não foram precisas as regras de Carlos Moedas e Sofia Galvão. Espero que tenham ouvido e tomado notas…

Falta dizer que também a moderadora soube escutar os seus convidados, o que não é de somenos importância.

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3 respostas a Quem decidiu que a política tem de ser uma chicana permanente?

  1. Freitas e Louçã, da mesma área político-ideológica? Em que país é que vive, caro José baeta?

  2. José M. Baeta diz:

    Freitas do Amaral, Francisco Louçã, Eduardo Paz Ferreira e Jorge Reis Novais, todos eles da mesma área político-ideológica, moderados por Maria Flor Pedroso, excelente profissional que aproveito para saudar, mas, também ela, dessa área. A isto, um debate sem contraditório, chamaria eu um excelente “serviço público de rádio”, se estivéssemos em Caracas, é claro…

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