O direito ao silêncio também vale para a televisão

A SIC iniciou esta terça-feira uma série de reportagens sobre o BPN. Não consigo ainda emitir uma opinião sobre o valor jornalístico da primeira reportagem. Mas há uma questão que me foi suscitada. O autor, Pedro Coelho, jornalista de méritos firmados,  afirmou que 24  personalidades não aceitaram participar na reportagem e que outras preferiram não ser identificadas. Disse também que “ao longo dos programas serão identificadas todas as pessoas e entidades que não quiseram falar“.

A minha questão é esta: as pessoas são obrigadas a falar para a televisão? E se não falarem é legítimo apontá-las como  se fossem suspeitas ou culpadas? O direito ao silêncio não é reconhecido até em tribunal? Seria mau que em democracia as pessoas fossem obrigadas a falar só porque um programa de televisão quer ouvi-las.

O que se passou no BPN é suficientemente mau, independentemente do que os seus protagonistas digam em entrevistas de televisão. Se a reportagem da SIC pretendia ouvir alguns deles em nome do princípio do contraditório e eles recusaram, o problema é deles, não da reportagem.  Mas  isso não lhes retira o direito ao silêncio nem dá à televisão o direito de os “carimbar”, como fez a SIC, sobrepondo à imagem de dois deles – Teixeira dos Santos  e Carlos Tavares – um carimbo vermelho.

Espera-se de uma reportagem que os seus autores investiguem para além do que lhes é dito por intervenientes ou observadores. Jornalismo de investigação não é igual a jornalismo pé de microfone. Pode ser mais ou menos difícil e demorado mas há sempre maneira de encontrar caminhos e fontes que podem dar pistas para chegar aos factos, sem necessidade de “represálias” sobre quem não quer falar.

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4 respostas a O direito ao silêncio também vale para a televisão

  1. antonio altaia diz:

    já agora pedro o cliente (cavaco) não merecia pelo menos um lamiré para desculpar os amigos?

  2. Pingback: BPN: a reportagem da SIC | VAI E VEM

  3. M. Rocha diz:

    Fala a autora dos “méritos firmados” do jornalista que coordena a reportagem. Lá terá as suas razões. Mas o que fica firmado nesta reportagem é uma atitude de “cruzada” de baixo nivel onde não vislumbro mérito jornalistico.
    Assinalou bem a inaceitável censura pública a quem recusou ser entrevistado. Mas poderia ainda ter referido o atropelo ao direito à imagem e à vida privada. O.Costa autorizou captação de imagem qd passeava por Lisboa de guarda chuva? E as imagens das declarações que proferiu em sede de Comissão Parlamentar, foram escolhidas pela pertinencia do que disse ou pelo facto de estar a falar de boca cheia?

  4. jose neves diz:

    Vai e Vem,
    O documentário traduz à letra a opinião do homem da rua e taxistas precisamente segundo a narrativa dominante introduzida pelo CDS/PSD, e não acrescenta absolutamente nada ao que é de conhecimento geral através dos media.
    A pulhice do autor não só coloca, logo no genérico, Teixiera dos Santos colado (carimbado) como igual a Costa como inicia o filme com a declaração de um cliente lesado do BPN a declarar perentóriamente: o maior culpado foi o Banco de Portugal e Victor Constâncio. Mais tarde ainda volta a colar TdS que, na qualidade de presidente da Bolsa na altura, ao facto de não ter supervisionado o BPN (tinha que supervisionar um banco não cotado em Bolsa?) e faz imediatamente a ligação avisando que é o mesmo que depois nacionalizou o Banco. Se TdS tivesse qualquer posterior ligação ao banco estava frito com este realizador político.
    Estava dado o tom.
    Mais tarde no painel para discussão do filme o autor não sai do seu preconceito e volta a martelar na ideia de que o principal culpado foi a falta de supervisão. Praticamente todos são arrastados para a discussão da supervisão e quase não se fala de outra coisa.
    Começa a ser evidente a tentativa de branqueamento do caso BPN cujos sinais são anteriores à nomeação do Alves. Este documentário vai claramente nesse sentido e veremos, pela amostra, se os próximos capítulos não serão ainda mais evidentes.
    Para já este primeiro documentário sobre o BPN é um bluff e sobretudo, claramente, um frete à narrativa dos partidos do actual governo.

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