BPN: a reportagem da SIC

Pedro Coelho, o jornalista da SIC autor da reportagem sobre o BPN, enviou-me o seguinte comentário, a propósito do meu post “O direito ao silêncio também vale para a televisão”, que pelo interesse das questões que suscita  transcrevo aqui para podermos continuar a discussão.

Diz Pedro Coelho:

“A questão que suscita é muito interessante do ponto de vista académico. Se fizermos o exercício para a aplicarmos ao caso concreto, julgo que deveremos ter em conta determinadas variáveis:
1) O caso e os protagonistas
Estamos a falar de pessoas que geriram o bem público no papel de servidores do Estado, e que, por isso mesmo, têm o dever de prestar contas aos cidadãos. Claro que têm direito ao silêncio, da mesma forma que os jornalistas têm o direito de sublinhar esse silêncio se entenderem que ele é jornalisticamente relevante. A relevância decorre das razões acima descritas;
2) O meio
A questão não deveria, do meu ponto de vista, ser colocada da forma como a coloca (“as pessoas são obrigadas a falar para a televisão?”); ou seja: o facto de ser televisão não deve moldar a resposta. Entendo que a identidade do meio não pode prejudicá-lo do ponto de vista da ação jornalística;
3) Jornalismo de investigação vs jornalismo pé de microfone
Perante um caso com esta dimensão, se os protagonistas se escondem atrás de uma recusa, ou se se protegem sob a capa do anonimato, a investigação complexifica-se. Subsiste, todavia, um pormenor que, se analisado de forma atenta, pode marcar a diferença que observa: o sublinhado, relativamente à recusa, ocorre depois da exposição dos factos, adquirindo relevância jornalística – exclusivamente – nesse contexto.
4) O fator tempo
Procurar caminhos alternativos foi o que, necessariamente, tive de fazer. Cinco meses (reais) de trabalho, 12 conversas de enquadramento não gravadas que serviram para confirmar informação, testar a veracidade de determinados documentos e busca de contexto serão a prova de que esses caminhos alternativos foram o mote da ação.

Admito que esse imenso trabalho, em tudo diferente do “pé de microfone”, não seja percetível em cada uma das quatro reportagens. Admito, mas, peço desculpa pela ousadia, face ao exposto nos 4 capítulos, uma perceção difusa carecerá de melhor sustentação analítica.”

O meu comentário:

Concordo que as pessoas que “geriram o bem público” (no caso BPN) têm obrigação de  “prestar contas perante os cidadãos”. Mas discordo que seja a televisão (ou outro média) a imporem os prazos e as situações em que essas contas serão prestadas. Como sabe melhor que eu, a partir do momento em que um responsável político, ou de outra área, faz declarações a um jornalista perde o controle do destino que será dado às  suas palavras, uma vez que é o jornalista que vai escolher o que será divulgado de entre tudo o que ouviu.  Em assuntos sensíveis qualquer amputação de partes de um discurso, assim como  determinados enquadramentos visuais ou sonoros podem alterar completamente o sentido do que foi dito. Não digo que o jornalista altere ou manipule intencionalmente um depoimento que lhe foi concedido. Acontece, porém, que muitas vezes o próprio jornalista não se apercebe do efeito que uma determinada opção (até técnica) pode ter no   resultado final de uma peça. E num caso como o BPN qualquer palavra descontextualizada  pode ter efeitos incontroláveis para o seu autor. Daí que alguns dos protagonistas, inocentes ou culpados, pensem duas vezes antes de aceitarem expôr-se sem “rede”. Não concordei com o “carimbo” vermelho  “Recusado”aposto sobre imagens de pessoas que recusaram falar, porque acho que isso prejudica o registo sério em que a reportagem se situa e sugere um desejo de “castigar” quem se recusou a colaborar com o jornalista.

Sobre o “pé de microfone” não se aplicava  à sua reportagem em particular, já que nela é visível que houve trabalho e estudo prévio. Refere-se, em teoria, ao facto de muitas vezes a insistência em obter depoimentos  esconder a incapacidade de investigar.

Em minha opinião, o mérito do trabalho é ter reunido informação em parte dispersa e ter dado sentido a  factos e elementos que de outra forma passariam despercebidos. E isso já é muito e importante. Valorizo também o empenho da equipa em tornar a reportagem acessível ao cidadão comum, como o Pedro diz numa entrevista que li hoje, relatando os acontecimentos como uma “estória” protagonizada por pessoas reais para além dos decisores políticos e financeiros.

Espero que o Pedro tenha possibilidade de continuar a investigar o BPN.

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5 respostas a BPN: a reportagem da SIC

  1. JS diz:

    O tom panfletario e oportunista da reportagem fez-me ignorá-la totalmente. Enviesante e desinfornativa, aquilo não é nehuma verdade, nem jornalismo de investigação.
    O pior do jornalismo português. O que é preciso é alimentar a enorme massa de iliteracia mediatica ou seja as audiências. O Bruno Nogueira faria muito melhor.

  2. jose neves diz:

    Adenda,
    Porque não investiga o preconceituoso jornalista-realizador a vertente de financiador de campanhas eleitorais do PSD e nomeadamente as de Cavaco?
    Porque não investiga a vertente do tipo e categoria dos grossos depositantes do BPN. Também trazendo à luz o pessoal que lá ia pôr a massa à procura de taxas elevadas se percebesse melhor quer as hesitações de Constâncio quer a apressada, ou pressionada, sua nacionalização.
    Não, por aí não vai PC. Bate e rebate e torna a bater nas teclas já requentadas de falação e discussão na AdR e media. Faz o mais fácil e vai ao encontro do seu preconceito que, logo por acaso, é o mesmo do governo e o satisfaz.

  3. Brasilino, media (sem acento) é termo usado nos estudos internacionais. Escrevo ou com acento (aportugusando) ou em itálico sem acento. Escrever “meios de comunicação social” demora e gasta muitos caracteres…

  4. B.P. diz:

    Pormenor linguístico: porque diz ‘média’, Estrela Serrano (a televisão ou outro média)?
    O português não tem a palavra ‘meio’ (meios de informação)? Aliás, derivado do lat. ‘medium’, que faz plural ‘media’ (plural, sublinho)…

  5. jose neves diz:

    Desta vez vi apenas uns apontamentos repetidos e pelo mostrado tudo indica continua a saga de branqueamento do caso BPN. Aliás no sentido do que está fazendo o actual governo.
    Parece que neste capítulo, além dos dois principais responsáveis insinuados no anterior o PC encontrou outro responsável pela burla-roubo: a CGD. PC aproveita a deixa de Cavaco sobre a gestão da CGD, na altura atirada aos media por causa e contra Sócrates, para arranjar novo culpado e novamente ocultar os verdadeiro bandidos do golpe assaltante.
    Acerca das acções de Cavaco cita en passage. Porque não investiga este pequeno grande pormenor? Por exemplo, porquê Cavaco retirou tão apressadamente as acções do banco que era dirigido por amigos seus tão confiáveis ao ponto de ele próprio ser padrinho-fundador do banco?
    Em 2003 sairam notícias, ou rumores, no Expresso acerca de casos obscuros no banco. Parece que Constâncio agiu e pediu papeis que lhe foram entregues mas que, tal como toda a informação anteriormente fornecida era aldrabada. Mas, todas as altas figuras do cavaquismo, e Cavaco ele mesmo, que dominavam o PSD estavam metidas a aproveitar-se dos negócios do banco que também servia de forte financiador das campanhas do partido, como podia o BdP meter-se com tal ninho de vespas cheias de influências e poder?
    È quase evidente que o BdP, ele próprio infestado de partidários da gente BPN, teve receios e deixou andar. Fez alguma vista grossa e limitou-se a precaver-se com as legalidades.
    Explorar esta vertente do caso e outras que certamente existirão, nunca tentadas, isso p PC não faz. Provavelmente porque, ainda hoje ou mais hoje ainda, mexer nestes pormenores põe “o cu fininho” como se dizia na guerra aquando de uma operação perigosa.

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