O relatório de actividades de um Presidente em crise

Prefácio do livro “Roteiros VII”Diz o Presidente no Prefácio do livro de intervenções “Roteiros VII”» a que chamou “UM PRESIDENTE EM TEMPOS DE CRISE”:

“Por experiência própria, acumulada ao longo de dez anos como Primeiro-Ministro e após um mandato presidencial de cinco anos, sei, como poucos, que existe uma relação inversa entre o protagonismo mediático do Presidente da República e a sua influência efetiva sobre o processo político de decisão. Os que cedem à tentação da visibilidade fácil e da vaidade efémera acabam fatalmente por perder margem de manobra e capacidade de interlocução junto dos diversos agentes políticos e sociais, os quais, em situações de crise, se colocam frequentemente em posições de antagonismo e conflito, o que reclama uma intervenção arbitral, acrescida mas discreta, do Presidente da República.”

Não sei se o Presidente dispõe de algum estudo que estabeleça uma relação directa entre o que chama de “visibilidade fácil” do Presidente e a “margem de manobra e capacidade de interlocução junto dos agentes políticos e sociais”.  Modestamente lhe digo que estudei o assunto a propósito das presidências-abertas de Mário Soares e a sua premissa não tem sustentação empírica ou teórica. Pelo contrário, sempre que o Presidente se esconde e se auto-silencia, perde poder e influência. É aliás, mais fácil calar-se do que expôr-se e falar  aos portugueses.

Aliás, o que faz o Presidente quando fala aos jornalistas “entre portas” nos eventos onde comparece ou que organiza,  ou quando os convoca para os seus “roteiros” senão procurar a visibilidade que agora critica?

Compreende-se que o Presidente não queira  expôr-se às vaias dos cidadãos que agora o esperam sempre que sai do Palácio e prefira enviar mensagem aos eventos para onde o convidam, como aconteceu no aniversário da TSF. Mas não lhe fica bem acusar outros de “vaidade efémera” porque falaram e não se esconderam em momentos em que os cidadãos esperavam isso  do Presidente.

O prefácio do Presidente é um texto auto-justificativo, uma espécie de relatório de actividades, não de “um Presidente em tempos de crise” mas de um Presidente em crise. 

 

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Uma resposta a O relatório de actividades de um Presidente em crise

  1. Jorge diz:

    a não menção das suas funções como ministro das finanças do malogrado Sá Carneiro terá a ver com o a tragédia económica que se seguiu à tragédia humana do desastre de Camarate ( digo desastre, porque após tanta comissão de inquérito e demais atos judiciais, acredito tanto em atentado como nas insinuações sobre a morte de Hugo Chavez);

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