As interpretações sobre o regresso de Sócrates

De todas as interpretações que li e ouvi sobre o chamado “regresso de Sócrates”, a mais criativa foi a de Nuno Azinheira, no DN, segundo o qual se tratou de uma estratégia da RTP, aconselhada pela sua agência de comunicação, para criar um facto surpreendente capaz de abafar o impacto negativo do despedimento de Nuno Santos.  Como se a administração da RTP tivesse capacidade para fazer regressar Sócrates para se esconder atrás dele e retirar da agenda o despedimento de Nuno Santos…. A interpretação é simplista nos seus termos mas é visível que assim aconteceu: o despedimento do ex-director desapareceu dos media.

Menos sofisticadas são as interpretações da generalidade dos políticos-comentadores e dos jornalistas-comentadores que, atordoados pela surpresa, só divergem na prioridade que concedem às razões que apontam para o “regresso de Sócrates”. Uns colocam a tónica no desejo de ajustar contas com o governo e com o Presidente; outros privilegiam António José Seguro como o alvo do “novo” comentador e vêem no seu regresso a “mãozinha” de Relvas; outros, os mais invejosos, dão primazia ao alegado desejo de José Sócrates de preparar caminho para uma candidatura à Presidência da República. Outros, os mais medrosos, juntam todos estes argumentos e vêem no regresso de Sócrates uma espécie de bomba atómica que se abateu sobre o País.

Pessoalmente, admirei-me que Sócrates tivesse resistido tanto tempo calado, sem reagir aos ataques sistemáticos de que tem sido alvo desde que  saíu do governo: a diabolização de Sócrates não tem paralelo na vida pública nacional e atingiu todos os limites: uns acusavam-no ainda há pouco de ter fugido para Paris, os mesmos que agora assinam petições para que ele não volte e sobretudo para que não fale. Outros vasculharam a sua vida em Paris, colocando fotógrafos atrás dele, espiando-lhe os movimentos e a conta bancária. Outros puseram-no sob escuta, devassaram-lhe a vida e as conversas. A justiça, ou parte dela, aliou-se a jornais e televisões para o vergar. Não conseguiu.

Sócrates dava jeito calado, espécie de assombração, eterno bode expiatório de todos os males da nação.

Esse silêncio havia de ter um fim. Dois anos é pouco tempo? Talvez. Sobretudo porque o momento é de revolta e de raiva contra todos os políticos, os actuais e os anteriores. E Sócrates, como Mário Soares e outros líderes carismáticos, não deixa ninguém indiferente. É tudo ou nada. O seu regresso funciona como uma espécie de catarse para a exteriorização de ódios e de afectos.

Mas Sócrates não tinha alternativa senão regressar agora. Antes que o governo caia. Porque  quando o governo cair, Sócrates passará a um plano secundário e ele não pode deixar que  sobre os seus governos seja passada uma esponja sem uma palavra sua.

Se o governo cair e outro se lhe seguir sem ou com o Partido Socialista Sócrates deixará de ser o “diabo à solta” que ainda é e que ele não pode deixar que seja branqueado. E se esperar que Seguro chegue ao governo para ser comentador, tornar-se-à o “Marcelo” de Seguro. E ele nunca aceitará  ser um clone de outro. Sócrates é como as árvores. Morrem de pé.

Talvez o seu regresso seja breve, pontual. Porque, afinal, ele tem todo o tempo do mundo.

 

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