Sócrates: o ritual de passagem

José Sócrates foi entrevistado na RTP (foto LUSA)

Era impossível Sócrates regressar  directamente como comentador na televisão pública sem que o regresso fosse antecedido de uma entrevista, diria mesmo de uma  entrevista como esta. Nessa medida, a entrevista cumpriu o objectivo: funcionou como um ritual  de passagem do político – o ex-ministro – ao comentador.

Ao contrário do que acontece com os outros políticos-comentadores, antes de lhe ser dada posse de um espaço próprio, o próximo-futuro comentador  foi sujeito a uma espécie de “praxe” aplicada por dois jornalistas aguerridos, pouco interessados nas suas respostas e impondo-lhe “narrativa contra narrativa”.

Sócrates foi igual a si próprio e os entrevistadores também. Atropelaram-se mutuamente, e os jornalistas atropelaram-se também entre si. A princípio, houve perguntas e houve  respostas. Depois, lá para meio do tempo, as perguntas tornaram-se duplas, isto é um dos entrevistadores começava a pergunta e o outro fazia outra pergunta antes que a anterior terminasse. Sócrates começava a responder a um pergunta  mas logo surgia uma terceira e assim por diante…

Sócrates deu luta, como sempre. Irritou-se várias vezes, porém, não tanto como antes. Conseguiu dizer o essencial do que podia dizer: “caíu” em cima de Cavaco Silva, recusando-lhe “autoridade moral para dar lições de lealdade”, contrapondo-lhe a “conspiração das escutas que nasceu na casa civil do Presidente”. Sócrates foi, neste passo, mortal!

Defendeu o seu governo e o PEC IV, rejeitando a autoria do pedido de resgate: “fui obrigado”, disse,  poupando Teixeira dos Santos. Recordou o apoio da então líder do PSD na oposição, Manuela Ferreira Leite, ao aumento dos funcionários públicos em 20o9, uma das maiores críticas que lhe são feitas. Não assumiu erros ou culpas, a não ser que não devia ter formado um governo minoritário.

Não foi uma grande entrevista, sobretudo porque os entrevistadores quiseram  meter o Rossio na Betesga. Tocaram em muitos temas, embrulharam-se em números contra números, poucos argumentos, muitos soundbites. Foi uma espécie de entrevista “toca e foge”.

A avaliar pelos comentários que se seguiram nas televisões do cabo, políticos e jornalistas ficaram baralhados, em alguns casos, notoriamente desestabilizados. Alguns perderam a “narrativa”.

Sócrates vai ter que recentrar o discurso. Fazer pedagogia política, sem acrimónia contra aqueles que, justamente, acusou nesta entrevista. Há que dar o “salto por cima”. O jornalista que contracenar consigo no seu espaço televisivo não vai atropelá-lo nem contestá-lo. O terreno será exclusivamente seu. O que tiver a dizer, diga-o com convicção, como sempre faz, mas sem crispação, com um sorriso.

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3 respostas a Sócrates: o ritual de passagem

  1. Boa análise, como sempre 🙂
    Vou levar para as Leituras Cruzadas do A Nossa Candeia.
    Um abraço e… Boa Páscoa 😉

  2. Pingback: Análiz…zze | Âncoras e Nefelibatas

  3. joni sampaio diz:

    “com um sorriso”. Ai que querida. Não esquece os amigos.

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