Seria importante que o processo de contratação de políticos-comentadores fosse completamente transparente

Tem sido interessante acompanhar a discussão pública sobre o jornalismo e a política, provocada pelas movimentações em torno da contratação e transferência de políticos-comentadores de uns canais para outros  e, nos últimos dias, pela entrada de José Sócrates na categoria de comentador da RTP. Mais vale tarde que nunca.

A importância que a televisão assume na formação da opinião pública, pela sua capacidade de decidir quais os temas de que se fala quem fala,  que se mantém apesar da importância crescente dos novos média, e, por outro lado, o facto de em Portugal o comentário-político assumir formato original – com dirigentes e ex-dirigentes políticos detendo espaços próprios sem mediação jornalística – justificaria que as televisões tornassem essas contratações transparentes.

Desde logo, não deveria ter sido  José Sócrates, ele próprio, a esclarecer que vai comentar na RTP pro bono, já que a RTP não o fez. Seria importante que o processo de contratação de políticos fosse completamente transparente, não apenas na televisão pública embora nesta por maioria de razões, mas também nas privadas de sinal aberto, aliás obrigadas também a garantirem o pluralismo e a diversidade.

Não me refiro ao cachet  que cada um deles recebe ou vai receber  (embora isso seja o que mais interessa a muitas pessoas) mas, por exemplo, interessaria saber se o cachet de cada um tem alguma relação com as audiências, tal como acontece com outras contratações, ou se o critério é o número de citações que cada  político-comentador consegue, ou outro. Parece supérfluo mas não é.

Isso permitiria ao cidadão comum  perceber como se organizam e quais as regras desses espaços. Por exemplo, critérios dos convites; escolha dos temas a abordar;  que intervenção tem o jornalista no espaço do comentador; responsabilidade editorial desses espaços, e outras eventualmente acordadas.

Alguns destes elementos aparecem publicados em colunas de  fait-divers em alguns jornais, nomeadamente os cachets  e as intrigas de bastidores, como aconteceu com José Sócrates e exemplifiquei aqui.

Verdade seja dita que os responsáveis das televisões são os primeiros a não estarem muito interessados nesta conversa, por considerarem que o “segredo é a alma do negócio”. Mais uma razão para que a televisão pública dê o exemplo. Afinal, o papel de “regulador” do sector é uma das suas funções. Não basta regozijar-se com o milhão e seiscentos mil cidadãos que viram a entrevista de Sócrates. Cabe-lhe não alimentar tabus  sobre as condições em que contrata quem decide contratar. Só assim calará as vozes que, por ignorância ou má fé,  teimam em  afirmar que ela pouco se distingue das outras.

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