A narrativa de Sócrates

A palavra narrativa que nos últimos tempos entrou no vocabulário mediático nacional ganhou nova dimensão após a entrevista de José Sócrates. Deu-se então o fenómeno curioso de a palavra que até aí era usada por todos os que falam nos media – jornalistas, comentadores, etc. – passar a ter uma conotação negativa, espécie de invenção, mentira, alteração da “realidade”, etc., etc... Sócrates tem até o condão de dar novo significado às palavras e aos conceitos!

Acontece, porém, que a maior parte dos que usam o conceito o fazem por modismo. Há, contudo, imensos textos e estudos académicos sobre o conceito de narrativa, na linguisica, na história, na comunicação, no jornalismo. Na definição de narrativa cabe aliás quer a ficção quer o texto jornalístico, isto é,  a história real  e a apresentação da história real.

No campo do jornalismo a notícia pode ser um tipo especial de narrativa. Muitos autores têm analisado o conceito anglo-saxónico de “estória” como resultando de  um processo de construção através do qual um acontecimento sem interesse, vulgar, ou amorfo, se torna perceptível e com sentido. Sem um adequado enquadramento muitos acontecimentos não são percebidos como noticiáveis e, por isso, alguns nunca chegam a ser notícia. 

As notícias são construções da realidade  e não  “espelho” da realidade. Inserem-se numa prática cultural antiga – a narrativa e o contar de “estórias”.  Por isso, alguns slogans jornalísticos, por exemplo o da TSF, recuperam o conceito:  “por uma boa história, vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo”.

A narrativa informa-nos sobre os acontecimentos que relata que são inevitavelmente mediatizados pelo discurso do “narrador” que imprime a esse discurso traços, marcas ou indícios que necessitam de interpretação a par de outros directos e mais explícitos.

Acusar  Sócrates de possuir uma narrativa sobre a sua governação, atribuindo-lhe um sentido ficcional, por contraposição a outras narrativas alegadamente do domínio do “real”,  é pura ignorância.

Claro que Sócrates possui a sua própria narrativa, como os seus detractores possuem as suas. O próprio exercício de fact-checking  a que  jornais e televisões se dedicaram, numa tentativa de desmontarem a narrativa de Sócrates não é mais do que afirmação de diversas narrativas.

Alguma biliografia para interessados no tema, aqui 

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5 respostas a A narrativa de Sócrates

  1. Caro Carlos,
    Já me contentava que a maioria fizesse justiça à palavra político, nem seria necessário o animal!

  2. fernanda fusco diz:

    A psicanalise das palavras e o esvaziamento do conteúdo… desvio da realidade objectiva

  3. Carlos Serra diz:

    Cara comentadora Tânia Mealha!

    Quem foi, na sua, suponho que abalizada, opinião, o verdadeiro “animal político” ?

  4. nico diz:

    foi mais o modismo, que emergiu com Sócrates, e o ridículo exagero do homem na utilização do vocábulo do que a conotação com mentira

  5. Trouxéssemos essa narrativa para o campo da psicologia e o problema de Sócrates encontra-se, como de muitos mais, na forma como a constrói, como a escolheu ler a si e como a escolheu contar. Sendo sempre produto subjectivo do ordenamento das decisões da vida de cada um e dos significados que, também, para cada um encerra, o problema prende-se com as incoerências existentes entre a atribuição de significado interno (argumentos que o eu usa no diálogo consigo próprio) e os factos consumados exteriores. Sócrates tem a esse nível clivagens acentuadas, como outros seres humanos terão. O problema é quando se quer fazer passar por paladino impoluto, usando a arma/arte que melhor conhece a manipulação, além de se enganar a ele próprio quer passar as suas ilusões aos outros. Um dos objectivos do trabalho com as narrativas na psicologia pode prender-se, precisamente, com o desconstrução das “armadilhas” que psicologicamente construímos para nós próprios. Elas instalam-se como meio de proteger o nosso ego, muitas vezes como resultado dessa luta árdua entre o princípio do prazer e o da realidade. Pior mesmo é quando olhamos para a narrativa com admiração de nós próprios e não como forma de nos questionarmos. Sócrates volta envolto, pela boca de tantos outros comentadores tal ele, como “o bom comunicador”, “o animal político” (o verdadeiro deve dar voltas na campa), quando no fundo o jornalista é que não o confronta com as realidades exteriores que metem a nú e constituem as suas falhas. Ao jornalista não cabe a conversa de divã mas cabe-lhe o apuramento dos factos. Tempos estranhos estes em que vivemos, em que os jornalistas se ficam pela subjectividade dos significados que o entrevistado lhes trás sem deles retirar o que lhes compete – um questionamento socrático de confirmação e infirmação entre o que diz o sujeito e o que acontece na realidade partilhada que é o nosso país. Não sendo assim a psicologia tem todo um campo por explorar em Portugal. Já que a conversa sobre as subjectividades, com divã ou sem ele, serve para compreender linhas de raciocínio e de funcionamento mas não para deixar o sujeito no meio de ilusões e falhas de estrutura na construção de si próprio. Mais dia menos dia, irá ruir. O cerne da questão aqui é que psicologicamente o país fica submetido a um inconsciente colectivo que funciona como uma “pescadinha de rabo-na-boca” porque ao leme está quem não olhe para as falhas das suas narrativas e não procure uma estrutura sólida a partir da qual se possa desenvolver. Que queira fazer esse percurso per se é uma coisa que seja egoísta ao ponto de querer arrastar outros consigo, é outra. Manipulação será a palavra, nada de “bom comunicador” ou “animal político”.

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