O estratega da comunicação do governo avaliou mal o tempo e o modo da sua demissão

Relvas sobre RTPConsumada que está a demissão de Miguel Relvas, importa perceber o tempo e o modo da sua demissão. Relvas sabia que não podia continuar no Governo depois de conhecido o resultado do inquérito à sua licenciatura que estava na posse do governo e que este não podia esconder nem ignorar indefinidamente.

O comunicado do Ministério da Educação sobre os resultados do inquérito da Inspecção Geral de Educação e Ciência (IGEC) suscitado pela licenciatura de Relvas, veio fazer luz sobre a demissão, pondo fim à perplexidade causada pela omissão de uma explicação de Relvas para a sua saída do governo.

O comunicado não menciona nomes, referindo apenas que “atendendo à circunstância de existir prova documental de que uma classificação de um aluno não resultou, como devia, da realização de exame escrito, e face à limitação dos poderes de tutela, o Ministro da Educação e Ciência, no despacho respetivo, concordou com a proposta da Inspecção Geral de Educação e Ciência  de comunicar o caso ao Ministério Público para que, junto do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, dele possa extrair os devidos efeitos legais.”

Segundo o próprio comunicado, o mesmo chegou ao Ministério “em Março” num dia que  não é identificado. Foi objecto de dois despachos,  em 2 e 3 de Abril. Podia, talvez ter sido despachado antes ou depois dessas datas mas alguém decidiu que o não fosse. O relatório vai ser enviado ao Ministério Público para efeitos legais, isto é, não compete ao ministro da Educação e Ciência anular a licenciatura de “um aluno”. Esse aluno é, obviamente, Miguel Relvas.

Relvas afirmou no seu discurso perante os jornalistas que sai por “vontade própria” e podia ter acrescentado, que sai também em momento escolhido por ele:  um dia depois da moção de censura do PS e um dia antes da anunciada decisão do Tribunal Constitucional (TC) sobre os pedidos de apreciação da constitucionalidade do orçamento do Estado.

Ora, como estratega da comunicação do Governo, Relvas avaliou mal o tempo da sua saída. Pensou talvez que a decisão do TC, prevista para esta sexta-feira, abafará a sua demissão e que a discussão a que se assiste nos média e nas redes sociais desde que foi anunciada, durará apenas mais umas horas até ser conhecida a decisão do TC.

Puro engano. O impacto da sua demissão vai prolongar-se para além da decisão do Tribunal Constitucional e  da esperada remodelação do governo. Porque a sua demissão irá ter repercussões, não apenas pela influência que prometeu continuar a exercer sobre o PSD e sobre Passos Coelho, a quem no momento da saída  mostrou a “factura”:”O caminho que percorri foi bem mais longo, porque aos dois anos de funções governativas devem somar-se os três anos que os antecederam. Dois anos em que acreditei e lutei, no interior do meu partido, pela afirmação de um novo líder que encabeçasse um projeto de mudança para Portugal. Depois, mais um ano em que acreditei e lutei pela eleição de um novo primeiro-ministro e pela escolha de uma nova proposta de governação que pusesse fim para o desastre em que nos encontrávamos”.

Mas Relvas ficará durante muito tempo associado sobretudo ao desastre da sua gestão do futuro da RTP, empresa em que jogou o seu destino e mostrou incompetência e leviandade.

Mas Relvas não está só. Ele é também o símbolo de uma certa maneira de fazer política, que existe em todos os partidos e da qual os líderes não prescindem porque sem “os Relvas”  dificilmente se chega ao poder num qualquer partido. Relvas é o criador, ou um dos criadores, de Passos Coelho e não largará a sua criatura, nem a  criatura se livrará do criador.  Isso viu-se nestes dois anos e continuará presente na vida de ambos e nas nossas enquanto um deles mandar nos nossos destinos.

Relvas não está politicamente morto. Ele próprio referiu que interrompe a actividade política. Nem Relvas é o “diabo”. Tem amigos bem colocados, até entre jornalistas, alguns dos quais  o adularam enquanto  ele teve poder.

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