Sócrates lembrou ao Presidente como funciona o regime semi-presidencialista

A inclassificável declaração de Passos Coelho, proferida esta tarde, teve o tratamento devido no espaço de comentário de José Sócrates: “Passos tratou o Tribunal Constitucional como inimigo político e criou uma querela institucional”

Mas a crítica mais certeira de Sócrates foi ao Presidente da República, uma crítica directa ao coração da função presidencial. Sócrates recordou a Cavaco e a Passos que “desde Eanes” o Governo não depende da confiança política do Presidente e que ao pedir apoio ao Presidente e obtendo deste uma espécie de “moção de confiança”, Passos tornou o seu governo o governo  de iniciativa presidencial de que tantos falam nos últimos dias. Sócrates tem razão: o Presidente e o governo estão umbilicalmente ligados. Ora, o Presidente precisa de  “independência e liberdade para intervir e usar os seus poderes.”

Sócrates não desiludiu. O governo e o Presidente deram-lhe uma ajuda preciosa, fornecendo-lhe um tema  onde ele está à vontade: 6 anos de reuniões semanais com Cavaco chegaram-lhe para perceber as fraquezas do inquilino de Belém. Verdade seja que foi Cavaco quem, com o seu inopinado Prefácio, abriu as “hostilidades”. Sócrates lembrou hoje como funciona o regime semi-presidencialista.

Até a demissão de Relvas “ajudou” Sócrates, proporcionando-lhe a possibilidade de contradizer aqueles que continuam a comparar sua licenciatura à licenciatura de Relvas, como ainda hoje faz, no DN, um comentador que, como académico, tinha obrigação de saber do que fala.

Do ponto de vista formal, o programa de José Sócrates (tal como o de Morais Sarmento) tem um tipo de  realização que dispersa a atenção do telespectador devido ao uso frequente de planos afastados que não permitem acompanhar a expressão facial do comentador em momentos-chave, o que é importante para uma leitura para  além das palavras.

Cristina Esteves, no difícil papel de moderadora, sentiu as dificuldades do formato, superando-as em muitos momentos. Habituada a enfrentar as câmaras dominou com à vontade o “espaço” televisivo. Aqui e ali, notou-se que está ainda à procura do registo adequado, ora interrompendo o comentador sobrepondo a sua voz à dele, o que aconteceu algumas vezes, ora fazendo aqui e ali a interpelação que se impunha. No final, a pergunta sobre Relvas foi a cereja em cima do bolo, não obstante, como sabemos,  neste tipo de programas o comentador raramente, ou nunca, é surpreendido por questões colocadas por quem modera.

Sócrates mostrou afinal que não necessita de possuir insider information (como Marcelo ou Marques Mendes) para fazer um comentário com substância, que vá além da intriga de bastidores.

Pelo menos hoje foi assim. Veremos se o nível se mantém.

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4 respostas a Sócrates lembrou ao Presidente como funciona o regime semi-presidencialista

  1. S. Bagonha diz:

    “José, é sociólogo…” Terá a Sra. toda a razão, mas que o fulano “parece mais um vulgar caceteiro com uma coluna num jornal…”, lá isso parece, pelo menos quando o assunto é J. Sócrates.

  2. fernanda fusco diz:

    Gostei! Obrigada pela imparcialidade das suas palavras!

  3. José Silva Pinto diz:

    O Alberto Gonçalves é académico? Se é, não parece: a mim parece-me mais um vulgar caceteiro com uma coluna num jornal…

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