Buracos e rombos no discurso jornalístico

Uma análise ao discurso dos media na última semana, desde que foi conhecida a decisão do Tribunal Constitucional, revela como o discurso político contagia e contamina o discurso jornalístico e vice-versa, transformando o espaço público mediático num espaço saturado de clichés que se repetem à exaustão provocando uma cacofonia manipuladora e insuportável.

Alguns exemplos de ideias que fizeram caminho:

– O governo não tem um “plano B” (para o chumbo de artigos do OE): o governo fez crer que não tinha um plano B e a imprensa assumiu a frase que, obviamente, circulou porque interessava ao governo fazê-la passar como  prova de que não estava à espera do chumbo do TC (que sabia certo). Isso permitiu-lhe fazer a chicana dos últimos dias contra o TC para convencer a troika de que a decisão era imprevisível, como se prova pela seguinte frase do Ministro Gaspar que agora se percebe melhor: “« O  Governo está convencido que respondeu às preocupações expressas pelo Tribunal Constitucional e neste contexto não é possível e não faria sentido ter plano de contigências para este tipo de eventualidde» 

– A decisão do TC abriu “um buraco” no orçamento: A ideia de que foi o TC que abriu o “buraco” ou um “rombo” foi repetida por todos os media como coisa natural em vez de formularem a questão ao contrário: o governo  ao reincidir na apresentação de normas inconstitucionais  fez um orçamento cheio de “buracos”.

– Do mesmo modo, o discurso sobre a “extensão das maturidades” e a “cimeira de Dublin” usados pelo ministro Gaspar e pelos responsáveis europeus como chantagem e ameaça para mais austeridade, bem como “o regresso de urgência  da troika a Portugal”, com Passos a responsabilizar o TC por a sétima avaliação não estar concluída depois de Gaspar ter anunciado que estava concluída e que a avaliação fora positiva, foram acolhidas acriticamente pelos media sem o “fact-cheching” a que se dedicaram após a entrevista de Sócrates.

– Desde 2011 que o enquadramento mediático da “crise” seguiu uma estratégia discursiva conducente à aceitação da ideia de culpabilidade dos cidadãos portugueses (e gregos, cipriotas, pelo menos) por gastarem demais e viverem “acima das suas possibilidades“. Trata-se de uma estratégia de spin doctoring usada para impôr aos cidadãos desses países uma determinada reorganização da economia e da sociedade. Em Portugal, o governo de Passos Coelho assumiu completamente essa estratégia, que a maioria dos media repete acriticamente, apesar de sabermos que está mais que provado que muitos se empenharam em tramar Portugal, e também a Grécia e a Irlanda…

Quem não se lembra do célebre “desvio colossal” que nunca ninguém explicou mas passou de boca em boca numa acção de manipulação organizada após um Conselho Nacional do PSD, depois desvalorizado pelo próprio Passos quando a ideia já tinha sido passada aos jornalistas e feito o seu caminho? Em vão alguns deputados do PS tentaram contrariá-la mas o “desvio” ficou.

Raras vezes o discurso político oficial e oficioso, incluindo o discurso das entidades internacionais que se alimentam dos resgates,  se confundiu de maneira tão evidente com o discurso dos media como desde o eclodir desta crise financeira.

Um dia, os portugueses e outros cidadãos dos pigs descobrirão que foram enganados e quem os enganou.

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