A política como jogo de sombras

António José Seguro teve hoje concentrada na sua pessoa a atenção dos media.  O suspense foi mantido até à conferência de imprensa que deu, cerca das 17h00. (De notar que os repórteres passaram agora a registar os minutos de atraso dos líderes desde que o Tribunal Constitucional fez o País esperar um bom par de horas pela leitura do acórdão sobre o Orçamento de Estado. Ficámos assim a saber que Seguro se atrasou alguns minutos em relação à hora marcada – as 17h00).

Segui em directo, pela televisão, a conferência de imprensa de Seguro. Comecei pela SICNotícias  que, após a declaração inicial de Seguro e as respostas às primeiras perguntas dos jornalistas, passou para os estúdios. Mudei para a RTP Informação que acompanhou a conferência de imprensa até ao fim.

Seguro começou  com a leitura de um texto escrito, curto e sem novidades. Nas respostas alongou-se para além do adequado, o que prejudicou a exposição e a clareza das ideias. A única informação nova foi  a de que a reunião com o governo “não apagou divergências entre PS e Governo e  que também os encontros com troika  não trouxeram “nada de novo, no essencial”.

Aliás, nos relatos das declarações de Seguro, os repórteres  usam expressões como “Seguro deu a entender” ou “Seguro deixou perceber”, dando assim conta de que  Seguro não quis falar do conteúdo concreto das reuniões com o governo e com a troika.

Ora, seria natural que Seguro informasse quais foram, em concreto, os assuntos tratados, que propostas foram feitas ao PS, qual a intervenção dos ministros que acompanharam a reunião, por exemplo, qual a justificação para a presença do novo ministro Poiares Maduro, porque é que Seguro não se fez acompanhar de membros da direcção, enfim, algo de substantivo sobre a reunião com o governo e com a troika.  (O PS deveria cuidar melhor da preparação deste tipo de intervenções).

Seguro tem o hábito, aliás correcto, de não comentar o conteúdo de reuniões com o governo e com o Presidente. Porém, como antecipei aqui, foi o governo quem tomou a iniciativa de dar aos jornalistas a carta que enviou a Seguro, o que  libertava este de qualquer sigilo sobre o conteúdo da reunião.

Ao invés, o Governo tratou  imediatamente de pôr a circular a sua “disponibilidade para novas reuniões”. Fez, uma vez mais, o seu spin. A reunião com Seguro serviu exactamente para poder dizer à troika que o diálogo existe e vai continuar.

Em suma: ao fim de um dia de enorme expectativa, do lado do PS os portugueses não tiveram nada de novo a não ser que as reuniões não serviram para nada. Falta, porém, informação sobre o que se passou, o que se vai seguir e qual foi a reacção do governo à posição do PS.

A gravidade da situação do País justificaria que as reuniões de hoje não tivessem sido mais do que um jogo de sombras. Pelo menos da parte do PS.

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2 respostas a A política como jogo de sombras

  1. Pingback: O ministro que encantou os comentadores | VAI E VEM

  2. EGR diz:

    A falta de clareza já vem sendo hábito.
    Lamentavelmente acrescento.

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