No país das montras forradas de papel

Era um centro comercial agradável, de pequena dimensão, com espaços aprazíveis onde se podia ficar a ler o jornal, um livro ou a conversar. No rés-do-chão os restaurantes estavam sempre cheios, comida para todos os gostos e preços.

No mesmo piso, a tabacaria, o cabeleireiro, a lavandaria, a loja de desporto, a para-farmácia, o pequeno supermercado, o cinema, uma pequena loja de telemóveis, compunham o ambiente.

No andar de cima havia lojas de vestuário feminino e masculino, galeria de exposições de pintura, perfumaria, livraria, pastelaria…

A princípio algumas destas lojas fechavam mas passado algum tempo surgiam outras no mesmo lugar. Depois as que fecharam já não abriram. As primeiras a encerrar foram as salas de cinema. Nunca mais abriram. Depois foi o supermercado. Durante um tempo ainda se falou que reabriria com outro dono. Os funcionários desempregados andavam por ali, falava-se que alguns seriam contratados pelo novo patrão. Depois, desapareceram  e nunca mais houve novo patrão. Do pequeno supermercado restam agora montras forradas de papel.

Depois fechou a tabacaria. As pessoas da zona iam, lá comprar o jornal e ficavam, a ler, enquanto tomavam o pequeno-almoço ou bebiam um café no espaço das pastelarias. O negócio ia-se compondo no centro comercial.

Depois foram fechando mais lojas no primeiro andar. Numa delas, de vestuário, a mais “in” do centro comercial, estranhei ver que as roupas continuavam lá dentro mas a porta estava sempre fechada. Até que vim a saber que o patrão deixou de pagar a renda, já não pagava há meses aos empregados e o dono do espaço trocou-lhe a fechadura e não o deixou levar as roupas.

E assim, a pouco e pouco, outras lojas e alguns restaurantes foram encerrando. O salão de cabeleireiro, antecipando o encerramento do centro, mudou-se para o prédio da frente na mesma rua, mudou de visual e conquistou novos clientes que agora o vêem da rua.

O pequeno e simpático centro comercial é agora um espaço quase deserto e triste, lojas fechadas que escondem o vazio com montras forradas de papel. Os restaurantes que restam têm poucos clientes e os empregados a custo escondem o desânimo. Vagueiam pelas lojas vazias ou ficam encostados ao balcão ou a porta…

O País de Passos e de Gaspar é o País das lojas fechadas e das montras forradas de papel. É este o futuro que o Presidente quer que continue a ser o futuro dos portugueses.

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Uma resposta a No país das montras forradas de papel

  1. Zm diz:

    Boa descrição, menos boa conclusão.
    O Centro Comercial, neste país, faz-me lembrar as zonas industriais pelo país fora.
    No concelho do Fundão, a 20 Km, avançam os trabalhos para a ZI da vila de Silvares.
    Ideia/projecto que poderia ter tido significado há 20/25 anos. Agora é tarde, mas as obras, fruto da lei da Inércia (da Física), lá se vão arrastando.
    Uma população com o clima e a natureza deste país, que em vez de ser educada para usufruir a natureza, foi encaminhada para as TV & CC. Uma boa razão mais, para acabar com as escolas secundárias ‘militares’.
    E para o consumo e consumismo que sabemos.
    Aliás, a profusão de CC, tal como a construção habitacional nas imediações das cidades a par da crescente ruína dos centros históricos em Lisboa ou no Porto, diz bem de uma classe política de novos ricos.

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