O discurso dominante

A grande maioria dos comentadores e dos  jornalistas criticaram hoje veementemente as medidas financeiras que o primeiro-ministro se prepara para anunciar amanhã, parte das quais foram hoje objecto de fugas de informação seleccionadas e noticiadas ao longo do dia.

As críticas não se limitam porém ao governo e aos cortes que ele se prepara para fazer. Afirmam, com a mesma convicção, que o único partido que poderia ser alternativa de governo – o PS – não constitui verdadeiramente uma alternativa. Aliás, qualquer proposta que venha do PS é imediatamente classificada como demagógica ou irrealista por jornalistas (estes através de fórmulas do tipo fact-checking) e por políticos-comentadores .

Ora,  a crítica ao governo e a afirmação sistemática e paralela de que o PS (ou qualquer dos outros partidos) não constitui alternativa, mostram que ao imporem enquadramentos para definir e construir a realidade social os média limitam a discussão, impedem a compreensão dos factos e o acesso de vozes alternativas.

As notícias e os debates sobre a crise económica e financeira nacional e internacional têm em grande parte contribuído para esconder muitas das suas verdadeiras causas, isto é,  limitam o conhecimento, “cegando” a realidade  em vez de a revelarem.

As notícias sobre a crise apoiam-se nas estruturas e nas fontes institucionais ao mesmo tempo que as reproduzem. Os procedimentos  profissionais que levam os jornalistas a solicitarem a comentadores  e a políticos profissionais reacções e comentários aos acontecimentos, mais não fazem do que legitimarem o status quo.

Em suma: os enquadramentos jornalísticos das notícias sobre a crise produzem e ao mesmo tempo limitam o seu significado, criando a convicção de que “o governo pode ser mau mas a oposição não é melhor”. É este o discurso dominante sobre a crise que os média reproduzem e alimentam.

 

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2 respostas a O discurso dominante

  1. jose neves diz:

    Nem mais. Ainda hoje na “Quadratura” o sofista Lobo Xavier levou minutos e minutos a remoer a sua ideia para passar exactamente essa mensagem: o governo não é bom mas as alternativas seriam ainda piores. Valha-nos Pacheco que já chegou à conclusão que até as eleições são melhor que manter-se a actual degradação social.
    Não tendo nada de bom ou eficiente deste governo para apresentar desvalorizam o adversário. E compreende-se que a maioria dos jornalistas e comentadores alinhem conscientemente na propaganda desta ideia porque são os mesmos que também venderam a ideia, nesssa altura oposta, de que bastava mudar o governo para que tudo ficasse resolvido.
    Parecem moscas a sair da dita em que nos meteram.

  2. “As notícias e os debates sobre a crise económica e financeira nacional e internacional têm em grande parte contribuído para esconder muitas das suas verdadeiras causas, isto é, limitam o conhecimento, “cegando” a realidade em vez de a revelarem.” – Mas não foi sempre assim? Uma das realidades sociais é que antes de as populações perderem confiança nos Políticos, primeiro perderam confiança nos Jornalistas. Pelo menos cá pelo jardim à beira-mar plantado?

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