O “off” e o “on” e as cumplicidades entre jornalistas e políticos

Estas duas manchetes do Público falam por si, isto é, para além de se desmentirem uma à outra, dizem muito sobre as relações entre o jornalismo e a política.

16 de Maio de 2013

16 de Maio de 2013

16 de Maio de 2013

17 de Maio de 2013

“Altos responsáveis do Governo alemão”, segundo o Público, ou “una alta fuente alemana”, segundo o El País, “transmitiram a vários jornais”, pedindo anonimato, críticas à Comissão Europeia e ao seu presidente Durão Barroso, abrangendo também o BCE e o FMI, acusando Barroso de “incompetência”, “receitas erradas e de ninguém assumir as responsabilidades pelos erros dos programas de ajuda externa”.

No dia seguinte (hoje) à publicação dessas “notícias” “a chancelaria de Angela Merkel” emitiu “um esclarecimento” a elogiar os méritos de Durão Barroso, isto é o governo alemão fala sob anonimato e depois emite “esclarecimentos” a dizer o contrário.  Nada de muito novo, diga-se, da parte de “altos responsáveis” de qualquer governo. Pelo menos nisso a Alemanha não se distingue dos pigs que tanto despreza.

O que é lamentável é que jornalistas experientes e jornais de referência, como é o caso do Público e do El País, se deixem instrumentalizar por “altos responsáveis” que sob a capa do anonimato lançam “lebres” e ficam à espera de ver as reacções. O jornalista não é uma correia de transmissão de intrigas ainda que os autores dessas intrigas sejam membros de um governo tão poderoso como o alemão.

Percebe-se que os jornalistas, nomeadamente os correspondentes junto de instituições que detêm informação privilegiada, alimentem relações muito próximas com “altos responsáveis” possuidores desse tipo de informação. O problema é que não há almoços grátis e esses responsáveis “cobram” o privilégio da confiança e da proximidade que concedem a certos  jornalistas (geralmente conceituados) “usando-os” para através de anonimato atingirem objectivos pessoais ou mesmo institucionais.

Não se pode dizer, neste caso, que os jornalistas tenham sido enganados, porque tal como é mencionado  no Público e no El País, o “esclarecimento” da chancelaria de Angela Merkel não desmente o que o responsável anónimo dissera na véspera. Apenas “esclarece”.

Os jornalistas ficam, é verdade, incomodados com estas atitudes das suas fontes. Mas, em geral, e neste caso também, não as denunciam para não as perderem.

São assim as relações entre a política e o jornalismo. Cumplicidade e troca. Entretanto, os cidadãos vão perdendo a confiança no que lêem e  ouvem. A crise do jornalismo também passa por aí.

 

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