Conselho de Estado: encenação e opacidade

Da reunião do Conselho de Estado ficaram as imagens das entradas e das saídas dos conselheiros, os seus silêncios e sorrisos e as fugas de informação. Do que foi dito, o mais importante é o que não se sabe mas se adivinha. O  comunicado final é uma espécie de cábula para Passos levar às reuniões de Bruxelas. Talvez o Presidente quisesse dar-lhe essa cábula mas não tivesse coragem de lho dizer. Então, chamou os conselheiros e tornou-a uma cábula colectiva em forma de comunicado do Conselho de Estado.

As fugas de informação conhecidas durante o dia  dizem que “a maioria dos conselheiros discutiu eleições antecipadas” e que “Cavaco Silva bloqueou no comunicado final qualquer referência, mesmo de teor genérico, sobre o facto de a atualidade política ter marcado parte importante da discussão”. Também se diz que Sampaio “deu um murro na mesa”, que Bagão Félix falou na taxa dos pensionistas e que Balsemão foi o que mais se aproximou do governo. Tudo isto vale, em termos substantivos, pouco mais que nada. O País ficou na mesma e o Presidente fez o seu “número”, cumprindo agenda.

Por mim, prefiro olhar para a fotografia dos conselheiros e, a partir dela, expôr sensações e especulações.
Só presidente do Governo Regional dos Açores faltou à reunião.Das intervenções dos conselheiros a única que gostaria de conhecer por me parecer a menos previsível é a do presidente do Tribunal Constitucional. Sentado quase em frente de Passos Coelho, imagino que não tenha dado opiniões jurídicas sobre, por exemplo, a taxa dos pensionistas ou a mobilidade dos funcionários públicos. Seja o que for que tenha dito, deve ter sido escutado com muita atenção.

Os conselheiros-comentadores – Marcelo, Marques Mendes, Bagão Félix, LF Meneses – devem ter recolhido material para os seus programas, pelo que é só esperar… Aliás, o que eles pensam sobre a Europa e os outros temas da agenda do Conselho pouco adianta à nossa cultura política, o que interessa neles é o que  sabem sobre a intriga partidária e os recados que passam.

Lamentável é o facto de apenas duas mulheres integrarem o Conselho de Estado, uma delas, por inerência – a Presidente da Assembleia da República. A outra, Leonor Beleza, muito alinhada, diga-se, com o Presidente. O Presidente, pelos vistos, não aprecia conselhos femininos…já tem de sobra.

A  comunicação política nos dias que correm é apenas  encenação  e opacidade. 

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6 respostas a Conselho de Estado: encenação e opacidade

  1. Pingback: O Público e o Conselho de Estado: areia para os nossos olhos | VAI E VEM

  2. André diz:

    @Estrela: Que escolhesse só homens mas que fosse um homem integro e não um reles oportunista.

  3. André diz:

    @JM Baeta: Abusivo é furtar-se de dar explicações cabais acerca da tentativa de golpe de estado das escutas, sobre o dinheirinho que ganhou com o BPN ou sobre a casinha a preço de saldo e fugindo à SISA. E no meio de todas estas canalhices e falcatruas ainda arranjou maneira de o sogro se abarbatar ao pavilhão atlântico por 40% do valor de obra (!) à troca da preciosa e ostensiva ajuda ao derrube do governo PS. Não será assim? Claro que é.

  4. Claro que a responsabilidade do Presidente incide apenas nos cinco escolhidos por ele. E ele escolheu apenas…uma mulher…

  5. José M. Baeta diz:

    Atendendo a que o Conselho de Estado é composto por: O Presidente da Assembleia da República; o Primeiro-Ministro; o Presidente do Tribunal Constitucional; o Provedor de Justiça; os presidentes dos governos regionais; os antigos presidentes da República eleitos na vigência da Constituição que não hajam sido destituídos do cargo; cinco cidadãos [(CINCO) (5)] designados pelo Presidente da República pelo período correspondente à duração do seu mandato; cinco cidadãos eleitos pela Assembleia da República, de harmonia com o princípio da representação proporcional, pelo período correspondente à duração da legislatura, parece-me, no mínimo, abusivo assacar ao P.R. o género da maioria dos Conselheiros. Não será assim? Claro que é.

  6. Bmonteiro diz:

    Um Conselho de Estado com os pensionistas bem representados:
    Do 1º Magistrado da Nação, passando pela 2ª Figura do protocolo de Estado,
    a vários precários, antigos executivos políticos como pensionistas precoces e vitalícios.
    E anda a senhora Dra Rosário Gama a lutar com a APRe.
    A bem do Regime.

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