As difíceis opções de Seguro

A reunião “das esquerdas” organizada por Mário Soares e as reuniões que António José Seguro iniciou esta terça-feira com os partidos políticos, lidas à luz do que tem sido dito e escrito sobre  ambas as iniciativas, suscitam-me os seguintes comentários:

– Considero que Seguro agiu bem ao não ter participado na “reunião das esquerdas”. Com a sua ausência Seguro mostrou que percebeu que uma coisa é a união das esquerdas para participação em eventos comuns de  oposição ao governo da direita, para o que não seria necessária a sua presença enquanto líder do PS , outra coisa é dar visibilidade à crença de  que o PS pode unir-se aos partidos à sua esquerda para um projecto governativo a curto prazo. Seguro sabe que esse projecto comum não é possível e que, uma vez chegado ao governo o PS terá sempre o PCP e o Bloco de Esquerda como fortes opositores.

– A iniciativa de A. J.  Seguro de se deslocar às sedes dos partidos para reuniões ao mais alto nível, vista por alguns como correspondendo à “agenda de um futuro primeiro-ministro”,  está a revelar, uma vez mais, a impossibilidade de acordos sustentáveis do PS com os partidos à sua esquerda. “Rasgar o acordo ou,  como diz o “PCP”, o pacto de agressão” com a troika, ou obrigar o PS “a definir-se” face à troika, como quer o BE, é tudo o que sempre fica dos discursos destes dois partidos quando se posicionam face ao PS.

– Ao contrário, e não obstante a falta de credibilidade de Paulo Portas, o CDS surge como o  único partido que estará sempre disponível para se juntar ao PS num próximo governo. O convite de Balsemão a Portas e a Seguro para participarem no Clube de Bilderberg, que junta à porta fechada governantes e destacadas figuras de 21 países da União Europeia e dos Estados Unidos, mostra que Seguro não quer nem pode comprometer-se com “frentismos” à sua esquerda. Ele sabe que as decisões sobre o futuro de países periféricos e dependentes como Portugal já não residem apenas no voto dos cidadãos.  O convite a Seguro para “entrar” no “Clube dos grandes” é  um primeiro sinal para que ele veja  onde está o poder.

– Apesar da jovem e promissora geração de políticos socialistas que brilhantemente enfrenta e se demarca do governo nas comissões parlamentares, não raras vezes com apoio  e em sintonia com o PCP e o BE, quando se trata de “falar a sério” entre as cúpulas das esquerdas o diálogo depressa se revela improcedente. Daí que no curto ou, na pior das hipóteses, no médio prazo, as opções de Seguro se apresentem  difíceis.

Um governo “das esquerdas” parece, por agora, apenas uma miragem.

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6 respostas a As difíceis opções de Seguro

  1. Jorge Xavier diz:

    O BE e o PC continuam a querer fazer parte do problema e não da solução. Terrível e deprimente…

  2. Silivondela, compreendo o que escreve mas a questão do “interesse partidário” não pode ser assacada apenas ao PS. Todos os partidos aspiram a chegar ao poder e isso é natural e legítimo. Só depois de lá chegarem podemos avaliar a coerência,validade e grau de adequação às necessidades do País. Mas para isso é preciso ganhar eleições (a democracia nesse ponto ainda funciona em Portugal). E é legítimo que num futuro (e desejável) governo de esquerda os partidos que o vierem integrar saibam interpretar o mandato que receberam.

  3. Silivondela diz:

    Continuamos agarrados ao interesse partidário, apenas. A questão não será se a via que se desenha com Seguro é mais do mesmo, de dependência face ao financialismo global? Sendo assim, e creio que é, as possíveis alternativas é que têm de ceder? Nem me interessa se é BE ou PC. Interessa-me é saber se o PS (com ou sem Seguro) entra numa via alternativa ou não.

  4. Caro Jorge Pedro Costa, não tenho nenhma espécie de “horror ao frentismo”. Simplificando, direi que apenas constato que se é certo que o PS está amarrado a compromissos anteriores, como sejam a presença da troika (embora disposto a renegociar as condições dessa presença) o PCP e o BE não abdicam um milímetro das suas posições, que surgem como imutáveis qualquer que seja o contexto nacional e internacional, isto é, o PS tem de mudar tudo mas o PCP e o BE não podem mudar nada. Neste contexto, como é que é possível falar em projecto comum da esquerda?

  5. Jorge Pedro diz:

    Tal governo parece uma miragem porque, tal como atesta e bem, o PS assim o deseja. Um partido que abre a porta (e não a fecha!) a uma coligação com o CDS é um partido que já não tem qualquer matriz. De sobremaneira, gizar expectativas (e depois clamar satisfação quando se cumprem) em função deste tipo de oportunismo já é uma bitola bem diferente daquela a que deveríamos estar habituados. Pese embora o seu horror ao “frentismo” e às posições radicais do Bloco e do PCP, é preciso que tenhamos bem presente que Portugal está em recessão há três anos e que estará uma década inteira na lama. Não foram esses partidos que negociaram esta situação, nem faz qualquer sentido que se inverta o ónus. O PS tem a responsabilidade, e agora declara-se amarrado a ela, incapaz de parar a austeridade. Que há de mais sério? Reuniões do Bilderberg? Interessa-lhe o jornalismo, ou prefere o poder?

  6. Manojas diz:

    Penso que o que Seguro tenta é captar algum eleitorado, não militante, destes dois partidos, o que não é errado.

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