Quando jornalistas se confundem com militantes

Foto TVI

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O acto de apresentação da moção de um líder político ao congresso do seu partido destina-se a quem? A militantes, com jornalistas a assistirem para efeitos de cobertura do evento? Ou a jornalistas com militantes a assistirem?

É suposto o líder apresentar a moção aos militantes  e responder depois a perguntas dos jornalistas que estão na sala a assistir? E os militantes também é suposto fazerem perguntas ao líder?

Levanto estas questões porque na apresentação da moção de Paulo Portas, esta terça-feira, lida em directo nos canais informativos do cabo durante mais de uma hora, houve jornais que referiram o facto de Portas não ter “respondido a perguntas dos jornalistas, no final”.

Se  a sessão era para jornalistas qual o formato anunciado no anúncio/convocatória/convite? Será que se anunciou  uma declaração do líder do CDS sem declarações no final,  ou tratava-se de uma conferência de imprensa?  Se era uma conferência de imprensa, obviamente que haveria perguntas. Se era uma declaração sem perguntas, os jornalistas que foram lá aceitaram implicitamente as regras.

Resta então a questão de saber porque estavam militantes do CDS na primeira fila se era uma sessão para jornalistas. E se a sessão não era para jornalistas porque motivo esperavam os jornalistas fazer perguntas no final.

Os jornalistas não deviam desprezar estas questões de forma. Claro que o conteúdo da moção tem interesse político e jornalístico e é mais importante que o formato da sessão.  Mas por vezes a forma é também conteúdo. E se os líderes políticos confundem os jornalistas com os seus militantes e os jornalistas se deixam abranger nessa confusão, algo vai mal no reino da Dinamarca. Diria que vai mal o jornalismo e vai mal a política.

Percebe-se o interesse jornalístico da moção de Portas, mas uma hora de emissão directa de um documento  disponível  no site do partido, faz lembrar os tempos áureos de Fidel Castro e os seus infindáveis discursos transmitidos em directo para o país.

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6 respostas a Quando jornalistas se confundem com militantes

  1. Conferências de imprensa com público para “dar calor ao ambiente”, como nos talk-shows, só em repúblicas da banana…:-)

  2. josecoutonogueira diz:

    Quanto à partidarite, você mesma respondeu.
    Quanto ao evento em si, na altura vi ao vivo, e achei sempre que era uma conferência de imprensa – melhor, um comunicado para a imprensa ao vivo. Pensei que aquelas pessoas da frente eram militantes de visita à sede, ou coisa assim – não há nenhuma regra que impeça outras presenças numa conferência de imprensa, havendo lugar. Além disso compunham a sala, como nos talk-shows que têm um público para dar calor ao ambiente…
    Agora, a posição do CDS. O semi-círculo dos partidos é como os dentes na boca; quando um vai para a esquerda, os outros também vão, para preencher o vazio… Quando sai um, os outros tentam ocupar aquele espaço… O PSD nesta versão ultra-liberal foi tão para a direita que ultrapassou o CDS (que agora é democrata cristão, diz o Portas). O PS também foi para a direita, ocupando o espaço da social democracia, e assim o CDS está entalado entre os dois – assim se justifica que possa perfeitamente coligar-se com um ou o outro, conforme as conveniências. O CDS só permanece mais à direita nas questões “religiosas” – casamento gay, aborto,etc – que são mais filosóficas do que práticas. À esquerda, ou seja, entre a social democracia do PS e a esquerda leninista, fica um espaço vazio, o espaço socialista (marxista não leninista), que agora não tem ninguém. Era onde se esperava que o BE estivesse, mas o BE encavalitou-se no espaço do PCP e estão os dois praticamente iguais (menos nas questões filosóficas, tipo legalização da droga e homossexualismo, em que o PCP é completamente “careta”). Assim temos o espaço de um dente vazio enenhum dente parece interessado em acupá-lo. Isto é (mais) uma anormalidade do sistema actual, que o tempo há-de corrigir.

  3. José, não vejo em que é que este meu post tem a ver com partidarite. A questão que abordo nele relaciona-se com processos e estratégias de comunicação que é uma área que estudo, qualquer que seja o líder político, desta vez foi Portas, aliás, a quem reconheço capacidades comunicativas excepcionais, como, aliás, as reconheço a Sócrates. Isso não tem a ver com partidarite, embora me identifique politicamente muito mais com Sócrates do que com Portas (a propósito Portas aproxima-se “perigosamente” da esquerda.

  4. Vicente Silva diz:

    Portas igual a si próprio.Confesso que já perdi a paciência para ouvir a sua bem elaborada retórica discursiva,bastando-me cinco minutos para me aperceber,pelo cenário montado,que o produto à venda se destinava mais ao consumo externo do que a informar os militantes do seu partido sobre estratégias e tácticas a seguir nas próximas eleições o que, normalmente, são matérias para serem discutidas nos congressos partidários.
    Pelo que hoje li num diário,nada perdi e apenas se confirmou o meu prognóstico do que daquela montagem poderia sair: declarações de intenções e de promessas a longo prazo,desculpas esfarrapadas sobre os fracassos permanentes da governação e deles sacudindo as mãos como Pilatos. Enfim:tal como um cavaleiro com um pé no estribo e a outra perna no ar bem à maneira de Portas.

  5. josecoutonogueira diz:

    Estrela, sabe que sou seu leitor contumaz, mas desta vez a partidarite atacou-a com força. Tudo o que diz é pertinente, mas inútil. O Portas, passe as ideias que tem, é o político mais competente em acção neste momento. Se a mídia vai atrás, é porque quer. E olhe que o seu ídolo Sócrates não lhe ficava muito atrás na manipulação dos tansos…

  6. Não podia ser mais certeira a sua observação. Na verdade tudo nesta conferência de imprensa me chocou. Começando pela ar seráfico com que Portas “justificou” porque razão estava no Governo e contra as políticas do Governo ao mesmo tempo sem que isso possa ser considerado oportunismo político do mais abjecto.

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