Sócrates, por Teixeira dos Santos

Teixeira dos Santos TVI

Não tive oportunidade de ver, em directo, a entrevista de Teixeira dos Santos à TVI, esta quarta-feira, mas pela noite dentro fui ouvindo nas rádios os ecos dessa entrevista. Eram em geral muito sucintos, salientando quase só os “arrependimentos” do ex-ministro das Finanças: o aumento dos funcionários públicos e a descida do IVA. Pensei para mim: “cá está mais um contagiado pelo sentimento de culpabilização que Passos e Gaspar incutiram aos portugueses.”

Logo que possível fui visionar a entrevista e percebi então que me enganara. Percebi também a dificuldade que ao fim de dois anos de bota abaixo do governo anterior, com José Sócrates e Teixeira dos Santos apontados como culpados de todos os males do país, o discurso jornalístico tivesse alguma dificuldade em “mudar a agulha”. O mais importante da entrevista, era então que Teixeira dos Santos “reconhecera” qualquer coisa, continuando, portanto, como culpado.

E, no entanto, Teixeira dos Santos foi credível e muito claro sobre o que se passou naquelas semanas e dias antes do pedido de resgate, podendo extrair-se das suas palavras  que José Sócrates  revelou possuir aquele instinto que poucos políticos possuem e que os faz antever as consequências de determinadas decisões. A crer no relato de Teixeira dos Santos, aliás patente também no livro Resgatados, escrito por dois jornalistas, Sócrates teve a intuição política que faltou ao próprio Teixeira dos Santos quando, com o País acossado pelas agências de rating,  tentou e conseguiu o apoio de que precisava para evitar o resgate do país: Barroso, o BCE e Merkel.  Não vale a pena repetir aqui o que Teixeira dos Santos disse mais sobre esses dias ou sobre a subserviência e a inexperiência de Gaspar, ou o eleitoralismo de Portas e Passos. Ao pé deles, Sócrates avulta como um gigante.

Mas o que para mim não foi completamente claro na entrevista foi a razão pela qual Teixeira dos Santos quis falar agora. Bem sei que ele disse que dois anos de novo governo  era uma boa altura, etc., etc., e que dos convites antigos escolheu falar agora a Judite de Sousa. É lógico que a tenha escolhido, afinal, foi ela também quem entrevistou os banqueiros que, com Teixeira dos Santos, na TVI, precipitaram o resgate.

Mas a escolha desta data para dar a entrevista não pode ter sido um acaso. Teixeira dos Santos quis talvez fazer justiça a Sócrates, com quem disse na entrevista, não muito convictamente, que continua a falar “de vez em quando”.

Ora, quando nas comissões parlamentares,  relatores ocasionais  assumem como missão culpar Sócrates por tudo o que é PPPs, swaps ou quejandos, logo acolitados por “grandes títulos” e preclaros comentadores, Teixeira dos Santos talvez tenha pensado que era uma boa altura para repôr os acontecimentos no devido lugar e no devido tempo e fazer justiça a quem o chamou e o colocou na História.

Teixeira dos Santos é um senhor: não falou na “pressa de ir ao pote” de Passos e dos seus rapazes, embora tenha deixado algumas mensagens mais ou menos explícitas ao seu sucessor, Gaspar, como ter-lhe lembrado que o programa de resgate, como ele não podia ignorar, não  era mais que “a ficha técnica” já aplicada na Grécia e na Irlanda.

Teixeira dos Santos terá certamente muito mais para dizer. Talvez algum banqueiro queira também voltar a falar com Judite de Sousa. Ou talvez não, porque os banqueiros só falam quando o poder vigente está de saída….

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6 respostas a Sócrates, por Teixeira dos Santos

  1. Marisa, tenho muito respeito pela sua opinião mas não concordo com ela. Teixeira dos Santos não precisa de fazer campanha pelo PS ou por outro qualquer partido. Aliás, o que ele disse na entrevista não é surpresa para quem acompanhou os acontecimentos na altura, só que hoje muitos já não querem sequer ouvir falar no que se passou já que adoptaram o discurso oficial do “novo” poder. Teixeira dos Santos veio lembrar que o rei vai nú…

  2. Eu tinha o Teixeira dos Santos em boa conta, sobretudo depois de ler o “Resgatados”. Perdi-lhe o respeito precisamente agora. Esta entrevista devia ter feita, pelo menos, há um ano. Ele devia isso aos cidadãos. Dá-la agora nesta altura de pré-campanha… Não foi ele a dá-la, foi o PS. Esse mesmo partido que estava campanha em 2009 quando ele aumentou a função pública de que agora se arrepende. Qualquer palerma como eu conseguiu prever o impacte logo no dia, mas ele que era ministro das finanças não. O perigo é que o seu bom fundo ilude/confunde as pessoas. Eu própria dou comigo em guerra interior para não me deixar levar pelo “charme”.

    Para ganhar eleições o PS enterrou ainda mais o país, nessa e outras medidas. Tal como o actual PSD (este que se está a “lixar para eleições”) não está com pudor absolutamente nenhum em deixar o país afundar ainda mais para descer o IVA só na altura dos votos. Um dia Passos Coelho há-de dizer-nos (quiçá numa entrevista à Judite) que «é fácil falar depois», que na altura (agora) desconhecia o impacte de mais dois anos de IVA “excessivo”. E o mais grave é que continua a haver quem acredite. Em vez de serem julgados por negligência (dolosa) e inibidos de exercer gestão pública ganham eleições.

    http://perguntasinofensivas.blogspot.pt/2013/06/o-fim-do-silencio-de-teixeira-dos.html
    http://perguntasinofensivas.blogspot.pt/2013/06/passos-coelho-afinal-nao-esta-lixar-se.html
    http://perguntasinofensivas.blogspot.pt/2013/06/descida-de-impostos-de-que-andara.html

  3. Manuel Azevedo, respondo à sua questão: a Judite pareceu-me interessada em não deixar que a entrevista fosse um “tempo de antena” para Teixeira dos Santos e que a acusassem disso mesmo, tanto mais que foi ele próprio quem escolheu o momento de falar. Daí que ela não o tenha quase “deixado” desmontar toda a trama do pedido de resgate. Depois, como os jornalistas sempre fazem,Judite explorou as questões mais polémicas, talvez não esperasse que ele acabasse com o “célebre” corte de relações com Sócrates. As questões da “pequena política” acabaram por valorizar a prestação de Teixeira dos Santos que surpreendeu pela clareza e frontalidade com que respondeu a tudo, sem fugir nem hesitar.

  4. manuel azevedo diz:

    subscrevo na integra o seu texto,mas gostava de ver um comentario ao papel de judite de sousa,na minha opiniao mais preocupada com a baixa politica do que esclarecer os portugueses.para si estrela serrano um grande e solidario braço

  5. Muito obrigada, Francisco.

  6. ribeiro francisco diz:

    Excelente.

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