O meio-esclarecimento da “fonte de Belém”

As manchetes de hoje  do  Público e do Diário de Notícias  levaram uma “fonte oficial” da Presidência da República a desmentir que o Presidente tenha exigido a Passos que Portas integrasse o governo, confirmando a manchete do semanário Sol que afirmava o contrário das restantes. Diz o “esclarecimento” da Presidência:

 “A Presidência da República desmente que o Presidente tenha feito exigências relativamente a nomes que devessem integrar o executivo”, referiu a mesma fonte oficial.

Acontece, porém que o “esclarecimento” da Presidência é um meio- esclarecimento, uma vez que, ao dizer que o Presidente não fez exigências relativamente  a “nomes” não desmente que o Presidente tenha  exigido a permanência “do líder do CDS”, sem referir o nome de Portas.  O que, por si só, daria para análises interessantes se pensarmos que estava previsto para este fim de semana um congresso do CDS onde seria eleito (ou reeleito) o líder. Estaria o Presidente à espera que Portas deixasse a liderança do CDS?

O erro foi das manchetes que substituíram “líder do CDS” por Paulo Portas.

 0005_publico_4090mLeia-se a abertura da peça do Público:

O Presidente da República exigiu a permanência do líder do CDS no Governo, apurou o PÚBLICO. O primeiro-ministro afirmou nesta quinta-feira que “foi encontrada uma fórmula de manter a estabilidade do Governo” e comprometeu-se a “aprofundar” junto de Paulo Portas “uma forma de garantir as condições necessárias” à estabilidade governativa.

0105_diariodenoticias_4074m

Leia-se agora a do DN:

Durante o dia de ontem, foi veiculado que Cavaco Silva exigiu a presença de Portas no Governo para aprovar uma “nova fórmula” que mantenha estabilidade da coligação apresentada por Pedro Passos Coelho, a verdade é que Belém não o fez. O que terá sido dito pelo Presidente da República ao primeiro-ministro tem uma nuance, confirmada ao DN por um responsável governamental: Cavaco Silva considerou importante não a inclusão de Portas no Governo, mas sim do “presidente do segundo partido da coligação”.

E veja-se a manchete do Correio da Manhã:

0055_correiodamanha_4063mE veja-se agora a capa do SOL que é já um desmentido antecipado das manchetes do Público e do Diário de Notícias. capa Sol

Apesar de nenhuma das notícias que fizeram manchete dos  jornais citados identificar a respectiva fonte, o mesmo acontecendo com a “fonte oficial da Presidência da República”, os leitores destes jornais têm  razões para duvidar dessas fontes, especialmente da “fonte oficial”. De facto, porque razão o “esclarecimento” da Presidência não tem o “rosto” ou a “assinatura” de um porta-voz, ou de um assessor do Presidente? 

Mas também é certo que ao aceitarem uma informação dada por uma fonte que se esconde sob anonimato sem uma razão poderosa para isso, os jornalistas assumem a responsabilidade dessa informação. Quando essa informação se torna manchete e anula o prório corpo da peça a que se refere, como foi o caso do  DN, a responsabilidade maior recai  sobre a direcção do jornal que não só aceitou o anonimato da fonte como introduz um erro fatal na notícia, pondo em causa a  credibilidade do próprio jornal. 

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