A crise e o sentido das palavras

Jornal de notícias 17 Julho 2013

A avaliar pelos comentários nas redes sociais, a manchete desta quarta-feira do Jornal de Notícias causou justa indignação em muitos jornalistas e em leitores do jornal e cidadãos que embora não sendo  leitores se depararam a com esta capa na banca dos jornais.

O jornal joga com a ambiguidade da palavra “buraco” cujo sentido brejeiro se impõe neste título através da sua associação à pessoa da ministra.  Se em vez de “ministra” o jornal tivesse escrito “governo” o sentido seria naturalmente outro. E seria ainda outro se em vez da ministra fosse escolhido um ministro ou um determinado ministro.

O uso deliberado e fora de contexto de palavras com sentido ambíguo é sempre mau jornalismo, ainda que um título  jornalístico se destine além de informar, surpreender e motivar para a leitura do jornal.

Mas este título é sobretudo um  sintoma preocupante do abandalhamento a que chegou a representação mediática da política e dos seus principais protagonistas. É ainda  sintoma do abandalhamento de algum jornalismo.

Mas não é apenas isso. É também um dos tipos de discurso sobre a crise que vamos encontrando nos media. Brejeiro, ordinário, claro nos seus propósitos: chocar, gozar com a crise, talvez com a ministra, em última análise fazer rir. Mas não vai além disso, isto é não tem sub-texto.

Tomemos outra manchete, escolhida ao acaso. Diário Económico 17 Julho 013É de um jornal de referência, líder na informação económica, lido por decisores políticos e económicos.

Repare-se, porém, na manchete:  a expressão “salvação nacional” não surge entre aspas, é assumida pelo jornal como tratando-se de um facto, tipo  verdade apurada. E, no entanto, nada nos diz, antes pelo contrário, que um acordo entre os três partidos  seja a “salvação nacional”. A manchete assume, pois, como seu o discurso presidencial.

Paralelamente, a frase que acompanha a fotografia da ministra das Finanças, assume que as “eleições em 2014” estão a “bloquear” as negociações entre PSD, PS e CDS. A palavra “bloquear” aplicada às “eleições em 2014”  culpabiliza implicitamente estas pelo eventual insucesso das “negociações”, isto é, sem eleições em 2014, as negociações chegariam a bom termo.

São palavras só aparentemente neutras. Os mais distraídos ou menos informados tomá-las-ão como  tal. Mas na verdade elas são parte do discurso oficial: a inciativa do Presidente visa a “salvação nacional”  e as “eleições em 2014” são um empecilho a bloquear a “salvação nacional”.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Jornalismo, Política, Presidente da República, Sociologia dos Média com as etiquetas . ligação permanente.

4 respostas a A crise e o sentido das palavras

  1. Bmonteiro diz:

    No princípio era a palavra.
    Assim se viu com a invenção dos PEC.
    Plano de Estabilização e?
    ‘Crescimento’?
    Um terceiro termo, a amenizar a realidade das europas.
    A realidade de Detroit, vinda hoje a público.
    Falidos.

  2. B.P. diz:

    Modelares, as observações de um caso e de outro!
    Quem sabe, sabe…

  3. Amadeu Melo diz:

    Ainda para mais, estou convencido, o título do JN foi um aproveitamento do que foi dito, às 22 horas, no noticiário da SICnotícias.
    (isto não dá para meter foto, nem consigo buscar a peça no sítio da SICn, mas comentei de imediato essa frase no twitter).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s