O sentido das imagens

Portas e MLA capa PúblicoEstas três imagens  são do jornal Público e foram captadas no acto de posse dos novos secretários de Estado. A primeira é uma fotografia publicada na capa do jornal, as outras duas são imagens em movimento retiradas de um vídeo da cerimónia de posse, publicado na edição electrónica do jornal.

É interessante tentar perceber o que elas nos dizem e o que podemos perceber quanto à escolha da imagem da capa e do  texto que a acompanha.

Portas e MLA 2

Portas e MLA 1

Aparentemente, a imagem da capa – Portas tapando o rosto, como se não quisesse que o fotógrafo captasse a sua expressão fosse ela de riso ou de desagrado – nada tem a ver com o texto  que a acompanha, que diz:  “SWAPS  ESQUERDA PEDE DEMISSÃO. MINISTRA MANTÉM QUE NÃO MENTIU“.

E, todavia, a escolha desta foto não pode ter sido aleatória  (nenhuma opção jornalística é aleatória). Ao escolhê-la sem a relacionar directamente com um acontecimento que ela pretendesse ilustrar, o seu autor, ou o responsável do jornal que a seleccionou, está implicitamente a “convidar” os leitores a interpretá-la.

A escolha desta fotografia não é, obviamente, neutra. Como nenhuma escolha jornalística é neutra. A fotografia e o texto/legenda prestam-se a múltiplas leituras, de acordo com o grau de informação que o “intérprete” possuir sobre os dois protagonistas e sobre o conteúdo do texto/legenda.

Um leitor medianamente informado poderá ver nesta imagem a exteriorização por parte de Portas do sentimento de desagrado e desacordo que a “proximidade” política (que na imagem se transforma em física) lhe causa, levando-o a tapar o rosto.

Mas se o leitor associar à imagem o texto nela inscrito, dará à leitura anterior, um sentido duplo: não é apenas a “esquerda” que “pede a demissão da ministra”. Portas associa-se (no gesto de tapar o rosto) a esse “pedido”: não querer vê-la, simbolicamente não a quer    como colega de governo.

Eis porém que o mesmo jornal que seleccionou esta imagem para o lugar nobre do jornal, mostra na sua edição online o “filme” do mesmo acto de posse. As outras duas imagens da mesma cerimónia de posse mostram dois momentos em que  Portas e Maria Luís Albuquerque riram em conjunto e revelaram até cumplicidade.

Podemos perguntar: Qual das imagens é mais “real”? A fixa, de desencontro entre Portas e Maria Luís, publicada na capa, ou aquelas em que ambos riem abertamente (mais do que sorriem, como assinala o título que introduz o vídeo)?

A resposta é, uma vez mais, estritamente pessoal.

Este exercício simples de “leitura” de imagens pretende dizer que a comunicação seja ela através de imagens ou de textos é sempre mediada pelos contextos da recepção, isto é, as imagens e os textos que recebemos são contextualizados, transformados e percebidos pelo nosso olhar, pelo nosso conhecimento e pela nossa experiência.

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Uma resposta a O sentido das imagens

  1. Ativo diz:

    Não há imagens mais reais que outras (se não forem manipuladas), tudo está sujeito a interpretação. Temos é que conhecer as nossas fontes de informação de forma a sabermos o que esperar delas e fazer os nossos próprios juízos de valor, já de si condicionados à noção de realidade de cada um.

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