A deriva anti-políticos

O discurso anti-políticos é um discurso popular em Portugal. Basta seguir alguns programas de televisão como o do fiscalista Medina Carreira, na TVI24 e o do jornalista José Gomes Ferreira, na SIC Notícias, para constatar a displicência e o  quase desprezo com que são referidos os políticos em geral.

Esse discurso anti-políticos contamina grande parte do debate público, sobretudo por parte de analistas e comentadores vindos de áreas como a economia, a gestão, e (menos) o direito, os chamados tecnocratas. Esse discurso propaga-se aos cidadãos sobretudo em momentos como o actual, em que as dificuldades se transformam em revolta contra os políticos.

As poucas vozes que se ouvem no espaço público contra a deriva anti-políticos vem sobretudo de sociólogos, politólogos e personalidades ligadas às ciências sociais e humanidades e isso não é um mero acaso. São essas que estudam e reflectem sobre a organização da sociedade, os sistemas políticos, o funcionamento da democracia. São vozes minoritárias no debate político mas são as que mais vale a pena ouvir.

Mas o mais notório são as contradições daqueles que  vociferam contra os políticos. O actual governo e a recente remodelação ministerial são um bom terreno para analisar essas contradições. Um dia se fará a análise dos discursos que marcaram estes anos e se constatarão essas contradições de maneira mais sistemática e rigorosa.

Vejamos alguns exemplos: Vítor Gaspar deslumbrou tecnocratas  e jornalistas com o seu economês dito em modo lento, os seus hábitos matutinos de entrada no ministério, o rigor horário no início das conferências de imprensa, as notas de humor nas audições  parlamentares.  Os mesmos que o consideravam o supra-sumo do saber, criticam hoje o falhanço das suas políticas como se antes não as tivessem enaltecido. Gaspar, o amigo da troika, revelou-se afinal um tremendo flop. O peso político vinha-lhe da amizade com Shroeder e do deslumbramento que causava em Passos Coelho. Saíu com uma carta onde revela que lhe faltou apoio político.

A sua substituta, Maria Luís Albuquerque, com ou sem swaps, é vista por alguns como não tendo peso político, que assim reconhecem implicitamente que mais que tecnocrata um ministro deve ter peso político.

O mesmo se verificou com Álvaro Santos Pereira que representa um fenómeno idêntico ao de Gaspar. Era um académico estrangeirado que um dia escreveu um livro que deslumbrou Passos Coelho e foi chamado para o governo. O resultado foi o que se viu.

Congratulam-se agora alguns com a escolha de Pires de Lima para a pasta de Álvaro. Dizem  que como gestor e conhecedor das empresas será um bom ministro. Dizem  outros que a sua força lhe vem  de ser um alto dirigente político do CDS, muito próximo de Paulo Portas. São estes que estão certos e não os primeiros.

É certo que muitos políticos contribuem para o crescimento desta deriva anti-política que se espalha por redes sociais e por outros espaços mais ou menos públicos e se alimenta de estereótipos, como o de que os políticos são corruptos. Poucos têm coragem de enfrentar essas vozes e fazerem pedagogia sobre o que é a política, sobre como não existe democracia sem partidos e sem eleições e como sujeitar-se a votos é  além de um direito um dever cívico  que requer muito trabalho, dedicação e sacrifício.

Acusam-se os políticos de quererem “tachos”, carros, mordomias. Mas os tecnocratas que chegam ao poder rapidamente se deixam deslumbrar com essas mesmas mordomias – os assessores, as secretárias e os motoristas, os carros de alta cilindrada, a ribalta dos écrans televisivos, os microfones atrás deles, as inaugurações…as vénias….o “beber do fino”!

Se os políticos não forem capazes de um exercício de auto-crítica e de pedagogia junto dos cidadãos, desmistificando o discurso anti-políticos, quem o fará por eles?

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4 respostas a A deriva anti-políticos

  1. Caro Tarcídio, não conheço, de facto, democracia sem partidos. Concordo, porém que o modelo actual dos partidos (falo dos portugueses) favorece a cultura anti-partidos que existe em Portugal, nomeadamente, o clientelismo, a questão não resolvida do financiamento dos partidos, entre outros motivos. Mas também existe na população em geral ausência de cultura política, fruto de durante os 48 anos de salazarismo não ter sido desenvolvido nas escolas e mesmo nas universidades o estudo dos sistemas políticos, os modelos de democracia, a formação de quadros para a administração pública,etc.. A própria história do séc XX não chegava a ser estudada na universidade nas licenciaturas em História antes do 25 de Abril. É certo que a democracia não se aprende apenas nos compêndios, precisa de ser vivida e em Portugal estivemos muitos anos sem a viver e mesmo nos primeiros anos após 1974, tivemos liberdade a rodos mas não tivemos uma verdadeira democracia. Não é por acaso que é precisamente nos países culturalmente mais pobres que as ditaduras grassam e que os déspotas de direita ou de esquerda se afirmam. Continuamos a ter falta de quadros políticos à altura dos desafios que se colocam hoje. Os partidos estão cheios de gente bem intencionada, acredito, porém, sem qualificações para o exercício de cargos políticos no sentido de serviço público que tantos desprezam porque nem sabem o que isso é.

  2. Tarcísio Pacheco diz:

    Cara Estrela Serrano, existe um discurso anti-políticos em Portugal? E até em muitos outros lugares do mundo? Porque será? Já parou um pouco para pensar no assunto? E não há democracia sem partidos? Desculpe mas não concordo. Não nos condene ao medíocre rotativismo partidário que temos tido desde o 25 de Abril. Analise os resultados. Há outros modelos de organização social e política. Já ouviu falar de democracia representativa direta?
    Os políticos não a querem porque a maior parte deles vive dos partidos e para os partidos, sendo Passos Coelho um dos melhores representantes. E fiquei consternado com a sua aparente ingenuidade, que não pode ser real. Se fosse assim tão sacrificial o envolvimento na política, porque é que há tantas pessoas a dedicarem à política a melhor e maior parte das suas vidas???

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  4. Carlos Dias diz:

    É, de facto, urgente que o povo português perceba a importância da política e passe a votar criteriosamente. Só assim poderemos mudar a nossa classe política e dar um novo impulso a Portugal.

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