O mistério da origem do documento “forjado”

PCMA demissão do secretário de Estado do Tesouro, Pais Jorge, deu origem a vários epifenómenos que merecem também eles análise. Convém no entanto não perder de vista que a demissão foi causada pelo facto de Pais Jorge, que tinha a seu cargo no governo, entre outros assuntos, a questão dos swaps, ter tentado vender ao anterior governo, quando era dirigente do Citygroup, pelo menos um swap “tóxico” para  mascarar a dívida.

Um desses epifenómenos prende-se com a “inventona” do chamado “documento forjado” em que o ministério das Finanças se envolveu e pretendeu envolver a SIC e a Visão, os dois média que  divulgaram o documento que compromete  Pais Jorge na tentativa de venda ao governo de José Sócrates do citado swap.

A SIC e a Visão reagiram, desafiando o governo a “esclarecer se houve ou não manipulação de documentos públicos, que documentos foram forjados e por quem”, revelando que o documento  que o Ministério das Finanças considera forjado  teve origem  na residência oficial do primeiro-ministro”.

Esta frase, na verdade ambígua, foi interpretada como tendo sido uma fonte do gabinete do primeiro ministro a ceder o documento à SIC e à Visão, o que levou o gabinete de Passos Coelho  a  emitir um comunicado “esclarecendo não ter fornecido à SIC e à Visão os documentos divulgados por estes dois meios,

A ambiguidade da frase foi de imediato aproveitada pelo  porta-voz do PSD, Marco António Costa, que  logo se juntou à “inventona” afirmando que o secretário de Estado foi “alvo de um processo de intenções cirurgicamente  conduzido por pessoas que forneceram à imprensa documentos, que hoje já  se sabe terem sido manipulados”, endossando as responsabilidades da cedência do documento ao gabinete de José Sócrates.

Para aumentar a confusão, a SIC veio afirmar que “nunca atribuíu ao gabinete do primeiro-ministro a origem do documento“, o que levou por sua vez  o ministério das Finanças a vir novamente a público dizer que “não atribui culpas sobre o documento “falseado”.

Estes epifenómenos do fenómeno maior que é a irresponsabilidade da ministra das Finanças ao entregar  ao ex-vendedor de swaps a pasta governamental dos swaps, mostram pelo menos duas coisas;

1.ª:  a origem de um documento não é necessáriamente a fonte que cede esse documento  a um jornalista. Neste caso, a origem é, segundo a SIC, o gabinete do primeiro-ministro. Ora, o primeiro-ministro mudou mas os arquivos continuam a pertencer ao “gabinete do primeiro-ministro”, seja ele quem for. A fonte é a pessoa que facultou o documento aos jornalistas (e essa, naturalmente, não foi divulgada nem pela SIC nem pela Visão).

2.ª. Marco António não hesitou em responsabilizar o governo Sócrates, mas perante os jornalistas usou todos os cuidados (o respeitinho…). Numa entrevista a Mário Crespo, Marco António, todo pressuroso, quis esclarecer que não culpou os jornalistas mas quem lhes pôs nas mãos documentos forjados  (os jornalistas são paus-mandados?).

3.º O ministério das Finanças apressou-se também a dizer que não tinha atribuído a responsabilidade da manipulação do documento (como quem diz aos jornalistas “não vos culpamos …”).

4. º Para tentar “limpar a face”, o ministério das Finanças quer a Procuradoria-Geral e a ERC  a descobrirem quem deu o documento à SIC e à Visão.

Se pudessem descobrir o mistério….

 

 

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