Um título “silly” para um conteúdo muito sério

André Macedo Este artigo de André Macedo é um artigo importante sobre o jornalismo, escrito aparentemente em tom (e título) de silly season). Mas não é um artigo de silly season, longe disso. Ao contrário,  diz muito mais sobre jornalismo do que poderá parecer a uma leitura superficial. O artigo é sobre os jornais e os grupos de interesses que os influenciam e sobre eles exercem  alguma forma de poder. 

Retiro um excerto que passará despercebido a muitos  (leia-se o artigo inteiro para se entender o contexto):

“…O Diário Económico, onde trabalhei, e o Jornal de Negócios, por exemplo, vendem hoje cada um deles (nem sempre foi assim) menos de quatro mil exemplares por dia em banca, mas exercem uma influência determinante nestes poucos leitores que, por sua vez, têm um peso enorme na opinião que o País forma sobre os assuntos económicos e políticos. Não é por acaso que a reforma do IRC foi tão bem recebida: a agenda dos empresários é esta, não outra. Já a redução do IRS (vital) não encontra defensores tão persistentes e vocais que obriguem a que o assunto se fixe no centro do debate.” (sublinhado meu).

Este artigo, tal como outros publicados nos jornais citados por André Macedo da autoria dos seus directores e de outros responsáveis editoriais, (leia-se, por exemplo, este de Pedro Guerreiro, sobre swaps, do melhor que li) fazem mais pela literacia dos média do que muitos trabalhos de investigação académica sobre o jornalismo (contra mim falo que tenho feito alguns). 

A cobertura jornalística dos temas de economia é uma área especializada do jornalismo que requer da parte do leitor comum capacidade para ir além do “dito” numa notícia, reportagem ou  comentário. O trabalho de desconstrução de certos temas da área económica fica por fazer.

Alguns jornalistas de economia (como Peres Metello, de quem Mário Soares disse, em pleno “cavaquismo”, que lhe devia ter ficado a perceber uma certa engenharia financeira) usam  espaços de opinião nos seus jornais e sobretudo nas rádios e  televisões onde colaboram como comentadores e analistas, para explicarem o que as notícia dos seus jornais, por si só, não dizem. Porém, raramente falam do seu próprio trabalho e seria importante que o fizessem, tal como outros, sobre outras áreas do jornalismo.

André Macedo,  director do “Dinheiro Vivo”, jornal electrónico de economia, comentador na rádio e na televisão é um profundo conhecedor da matéria. No artigo a que me refiro, publicado hoje no DN, levanta algumas pistas sobre as (muitas) influências externas que pesam sobre a imprensa em geral e sobre a imprensa económica em particular. Sem o dizer expressamente ajuda a perceber como é que alguns poucos podem influenciar o rumo da economia e do país, fazendo-se ouvir nos “sítios” certos e escolhendo aqueles  a quem falar.  Depois, é só esperar que a mensagem passe e se propague a outros que a passarão a muitos. Os “muitos” são a maioria, isto é, os que padecem de iliteracia económica e se limitam a repetir o que os “poucos” disseram.

Por isso este artigo é importante, para mais com um título silly – garantia de que será lido por quem precisa  de o ler.

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