Rafael Marques é jornalista ou activista político?

Isabel dos SantosA peça da revista Forbes sobre a origem da fortuna de Isabel dos Santos ,”a Menina do Papá”, divulgada em Portugal pela agência Lusa e publicada pelos principais média nacionais, da autoria do jornalista angolano Rafael Marques e da jornalista americana Kerry A. Dolan, desencadeou uma discussão nas redes sociais  sobre uma questão aparentemente improvável.

De facto, ao contrário do que se esperaria, a discussão centrou-se não no conteúdo substantivo da peça – arrasador para a filha do presidente angolano, para ele próprio e para o regime vigente naquele país – mas para a natureza da peça e, principalmente, para o estatuto profissional de um dos seus autores, Rafael Marques.

Embora improvável, a discussão faz sentido, na medida em que Rafael Marques – até agora visto em Portugal como um dos heróis da liberdade de imprensa em Angola (veja-se o acolhimento que os média portugueses, em particular a SIC Notícias  pela mão de Mário Crespo lhe têm dado) – é citado a propósito desta peça como ” jornalista e activista político”, em alguns casos apenas como “activista político”.

No comunicado emitido por “fonte próxima de Isabel dos Santos”, em que o conteúdo da peça da Forbes é contestado, Rafael Marques é descrito como sendo “um conhecido ativista político que, patrocinado por interesses escondidos, passeia pelo mundo a atacar Angola e os angolanos”.

Noutras situações em que tem sido notícia, Rafael Marques surge referenciado ora apenas como jornalista, ora como “activista dos direitos humanos”. Porém, desta vez, a qualidade de “activista” sobrepôe-se à de jornalista e os “direitos humanos” perderam-se na citação.

A diferença tornou-se mais evidente a partir do momento em que Luís Paixão Martins,  responsável da agência de comunicação LPM,  lançou no Facebook um conjunto de posts contra o artigo da Forbes, classificando Rafael Marques como “activista político” e perguntando “quem financia o activista político contratado pela Forbes?” e sugerindo que conhece o nome desse suposto financiador.

É evidente que não é indiferente considerar que o artigo da Forbes é escrito por um activista político ou por um jornalista. Um activista político é parte interessada num assunto sobre o qual toma posição, ao contrário do jornalista cuja credibilidade lhe advém do facto de não estar comprometido com os assuntos sobre os quais escreve.

Mas parece também evidente que um jornalista tem um compromisso com a procura da verdade e com a defesa dos princípios e dos valores que orientam as sociedades democráticas, como sejam a defesa dos direitos humanos.

Daí que dizer que Rafael Marques é um “activista dos direitos humanos” seja diferente de dizer que é um “activista político”.

Qual dos dois estatutos é o de Rafael Marques? E em que qualidade colaborou com a Forbes na peça sobre Isabel dos Santos?

Se se trata de uma peça “patrocinada” (como sugere Paixão Martins) por alguém que pagou a Rafael Marques na sua qualidade de “activista político” para escrever a peça da Forbes, essa peça não é jornalismo. É um acto político puro. A revista terá, nesse caso, quebrado o contrato de confiança com os seus leitores.

Se, ao contrário, Rafael Marques usou o seu estatuto de jornalista e cumpriu as regras éticas e deontológicas do jornalismo na investigação dos dados que apresenta, respeitando o princípio do contraditório, tendo ou não sido pago pela revista Forbes que  publicou o artigo (e apenas por esta) não se justifica citá-lo insistentemente como “activista” ou “activista político”.

O futuro esclarecerá a questão colocada.

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6 respostas a Rafael Marques é jornalista ou activista político?

  1. Caro Jorge, agradeço o seu comentário, muito útil e completo. Tem razão, por vezes escrevendo ao correr da tecla, as palavras saem sem a precisão que se exige. Por isso lhe agrtadeço a correcção.

  2. Jorge Castilho diz:

    Ilustre Camarada: leio sempre com grande atenção os seus comentários. Concordo com grande parte deles, discordo de alguns – o que é normal. Mas mesmo naqueles de que discordo, aprecio o seu estilo escorreito (eu diria claro, correcto e conciso, como manda(va)m as regras do jornalismo. Por isso me atrevo a vir uma vez mais (a outra foi a de marcar um golo na baliza…) chamar a atenção para um lapso, certamente devido a distracção: o “despoletou” que surge no início do seu texto. Como tive ocasião de aprender da pior maneira (em quase 4 anos de serviço militar obrigatório, mais de 2 dos quais cumpridos em Angola, antes do 25 de Abril), DESPOLETAR é tirar a espoleta a uma granada – ou seja, torná-la inactiva, pois é exactamente a espoleta que, accionada, provoca a deflagração do engenho, Por outras palavras, despoletar tem exactamente o significado oposto ao que, frequentemente, lhe é atribuído. Mesmo o “espoletar”, que alguns linguistas agora aceitam como correcto, me parece inadequado, pois poderá querer dizer, quando muito, colocar a espoleta, mas não provocar a deflagração. Em suma, penso que será mais correcto dizer “deflagrar” ou “desencadear”. Espero, uma vez mais, que não de ofenda com a modesta observação de alguém que é jornalista profissional há 45 anos, alguns dos quais acumulando com o lugar de professor de jornalismo. Com saudações muito cordiais, Jorge Castilho

  3. Caro José Neves, por lapso meu não assinalei no espaço devido o acesso a comentários no post sobre o artigo de André Macedo. Agradeço-lhe ter-me chamado a atenção para isso e acabei de corrigir essa falha. Independentemente do que escreve sobre o jornalista, o artigo afigura-se-me bastante certeiro.

  4. jose neves diz:

    Bem, parece que neste blog são permitidos comentários nuns casos e noutros não, talvez de acordo com os assuntos.
    No post sobre o Macedo não era permitido por isso aproveito a oportunidade de aqui me convidarem a comentar.
    Só para lhe dizer que todo e qualquer elogio ao A.Macedo é, para mim, pensamento e teclado mal gasto. Esse Macedo de que fala abaixo fez a crónica, no DN, sobre Sócrates mais miserável e imbecil que me lembro. Fez um ataque soez ao carácter do então PM traçando um miserável retrato psicológico fundamentado no corte de cabelo, na gravata, nos sapatos, no fato e só não falou das cuecas do PM porque, provavelmente com pena, nunca teve acesso a tal adereço.
    O problema do Macedo é que, depois de tanto abanar o rabo e besuntar-se a chafurdar na porcaria para satisfazer um futuro dono, este desprezou-o e deixou-o a ver outros lambuzar-se no pote. Agora escreve como vingança e ajuste de contas.
    O Macedo que a senhora elogia atrás não vale nada, não presta, é uma merda.

  5. lavaium diz:

    LPM em ’75-’76 era jornalista no jornal novo ou activista político de extrema-esquerda?

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