O jornalista sentiu na pele aquilo que muitos cidadãos sentem

Este artigo do jornalista Pedro Tadeu, coloca duas questões interessantes, aliás interligadas:

Pedro Tadeu foi acusado pelo director da agência de Comunicação Cunha Vaz & Associados, numa entrevista ao Diário Económico conduzida pelo jornalista da RTP António Esteves, de ter aceite “uma encomenda” num processo que Cunha Vaz pôs a Manuel Maria Carrilho. A “encomenda” ter-se-ia traduzido na circunstância de Pedro Tadeu ter  testemunhado  contra Cunha Vaz em tribunal.

Segundo Pedro Tadeu, até hoje o Diário Económico não publicou o seu direito de resposta pelo que decidiu aproveitar a sua coluna de opinião no DN para publicar o citado direito de resposta, desmentindo completamemte as afirmações de Cunha Vaz e defendendo a sua honra profissional (recorde-se que a entrevista possuía como título de primeira página: “Há jornalistas dispostos a fazerem favores a amigos”, sendo Pedro Tadeu expressamente citado como exemplo desses “favores”).

A primeira questão suscitada por este diferendo reside no seguinte: devia o jornalista que entrevistou Cunha Vaz ter confirmado junto de Pedro Tadeu a acusação feita pelo entrevistado? E caso Tadeu a desmentisse  deveria mesmo assim publicar essa acusação?

A decisão mais lógica seria ouvir Pedro Tadeu antes de publicar a entrevista e informar Cunha Vaz do desmentido para que ele o retirasse, se assim o entendesse. Caso não fosse possível ouvir Pedro Tadeu, deveria publicar a entrevista e continuar a tentativa de o ouvir,  publicando o seu desmentido no mais curto espaço de tempo e com o mesmo destaque dado à entrevista.

A não publicação pelo Diário Económico do direito de resposta de Pedro Tadeu é incompreensível para mais num jornal de referência, como é o caso. O facto de o jornalista que fez a entrevista ser um convidado não pode inibir o jornal de tomar a decisão de publicar o desmentido, independentemente de quem fez a entrevista. O director de um jornal é o primeiro responsável pelo seu conteúdo  ainda que a entrevista tenha a assinatura de alguém exterior ao jornal.

A segunda questão, aparentemente menos importante, é a seguinte: o jornalista Pedro Tadeu é membro da direcção do DN, detendo uma coluna de opinião nesse jornal. Ele próprio reconhece esse “privilégio” a que chama “ter este espaço onde tenho a sorte de poder escrever”. Isso permitiu-lhe responder à acusação e defender a sua reputação profissional.

Este é um excelente exemplo para mostrar como o direito de expressão e a defesa do bom nome não são uma garantia de todos os cidadãos. Se Pedro Tadeu fosse um simples cidadão que desejasse defender a sua honra e isso lhe fosse negado pelo jornal onde foi ofendido teria a possibilidade de requerer junto da ERC o direito de resposta e este  certamente ser-lhe-ia concedido. Pedro Tadeu, como cidadão, independentemente de ser jornalista, tinha também a  prerrogativa de recorrer à ERC. Porém, não a exerceu (ao que parece) preferindo usar a “sorte” de ter um espaço no jornal onde é subdirector.

Moral da história: o jornalista Pedro Tadeu sentiu na pele aquilo que muitos cidadãos comuns sentem. Só que estes não têm “a sorte de terem um espaço onde podem escrever” (e defender-se).

Aditamento:

O director do Diário Económico, António Costa, reagiu ao meu post informando-me que o prazo de publicação do direito de resposta solicitado por Pedro Tadeu está a correr, pelo que o mesmo será publicado na próxima quinta-feira.

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11 respostas a O jornalista sentiu na pele aquilo que muitos cidadãos sentem

  1. Obrigada a todos os que comentaram o meu post. Aproveito para clarificar alguns aspectos do meu post que suscitaram os vossos comentários, em particular, Pedro Tadeu, António Cunha Vaz e dsoliveira:

    – de facto e em abstracto, uma entrevista não pressupõe o cumprimento do princípio do contraditório requerido numa peça jornalística. Porém, se o entrevistador se depara com afirmações do entrevistado que extravasam a matéria de opinião para se referirem a factos gravosos relativos a terceiros, afigura-se-me prudente que o entrevistador tente ouvir o acusado e, caso ele negue as afirmações produzidas sobre a sua pessoa, dar ao entrevistado a possibilidade de, se ele o desejar, corrigir o eventual erro. Evidentemente, se o entrevistado mantiver a acusação, o entrevistador deverá publicar a versão do entrevistado. É também evidente que deverá dar a possibilidade ao acusado de apresentar a sua versão. Em suma: numa entrevista o entrevistador não é obrigado a confirmar o que lhe é dito, visto que a responsabilidade das afirmações pertencem ao entrevistado. Mas se são proferidas acusações graves sobre factos que abrangem terceiros e ainda que não seja “obrigatório” ouvir o acusado parece-me, repito, prudente confirmar junto do acusado (até em defesa do entrevistado que pode ter-se equivocado.

    Relativamente ao caso em concreto:

    – Pedro Tadeu afirma num comentário ao meu post (ver em baixo) que esperou uns dias que o Diário Económico publicasse a sua resposta e como isso não aconteceu recorreu ao instituto legal do direito de resposta. Ora, o direito de resposta tem prazos e uma vez que Pedro Tadeu acabou por requerê-lo, o Diário Económico usou também o prazo legal. Claro que tratando-se de um caso entre jornalistas haveria a possibilidade, tentada por Pedro Tadeu, segundo ele afirma, de a resposta ter sido tratada a um nível informal e a publicação ser imediata e voluntária por parte do Diário Económico. O facto de o jornalista que fez a entrevista a António Cunha Vaz ser um convidado (jornalista da RTP) e não um jornalista do Diário Económico pode ter levado a direcção deste jornal a consultar o jornalista da RTP e isso ter atrasado a publicação imediata da resposta de Pedro Tadeu. Não sei se assim foi, porém admito essa possibilidade.

    – Sobre um jornalista usar o seu espaço de opinião no seu jornal para resolver um assunto pessoal não é caso único, mas não é uma boa prática, como, aliás, Pedro Tadeu reconhece no seu comentário.

  2. dsoliveira diz:

    Embora tardiamente, gostaria de deixar o meu comentário ao post de Estrela Serrano, na parte em que diz que seria dever ético do Jornalista do Diário Económico obter confirmação, junto de Pedro Tadeu, sobre o que dele diz António Cunha Vaz.

    Salvo o devido respeito e consideração por Estrela Serrano, não concordo com esta sua conclusão, dado que as declarações têm autor bem identificado e estão publicadas com essa clara identificação. Trata-se de uma entrevista, não de uma pesquisa ou investigação sobre um determinado facto ou uma determinada pessoa
    Neste caso, não será de exigir ao jornalista e ao jornal que faça o contraditório antes da publicação
    Mas não pode deixar de se lhe exigir que o faça – e o admita – depois da publicação.
    O facto de vir a este tema tarde permite-me beneficiar do facto de saber que, afinal, o Dirário Económico vai publicar a resposta de Pedro Tadeu. Mas, se bem percebo, vai fazê-lo quase 2 semanas depois, numa altura em que já ninguém se lembra.

    Mas este não é o tema principal.

    Acabo por onde Estrela Serrano terminou o seu texto.
    É verdade que os Jornalistas dispõem de meios que lhes permitem defender o seu nome e reputação de que o comum dos mortais não dispõe.

    Mas, pergunto: deveriam os Jornalistas utilizar esses meios para se defender sempre que, por qualquer razão, ainda que pouco razoável e por vezes falha de bom senso, entendessem, segundo um critério só seu, que a sua honra e reputação estão em causa?

    A resposta é não.

    O espaço de que os Jornalistas beneficiam é dos Jornalistas e deve ser utilizado para fazer Jornalismo, de acordo com a linha editorial do meio e a ética do Jornalista. A defesa da honra do próprio Jornalista não é, seguramente, um elemento do Código Deontológico dos Jornalistas ou do Livro de Estilo do meio.

    Nestes casos, o Jornalista deve submeter-se à política editorial do meio, que decidirá se publica ou não a defesa da honra do Jornalista.

    O Jornalista não deve tomar partido em causa própria e não deve pôr o espaço de que beneficia ao seu serviço.

  3. Pingback: A verdade (dos bons jornalistas) continuará a abrir caminho | Umbigo Púdico

  4. Lídia, a resposta do Pedro Tadeu foi publicada na edição papel.

  5. lidia drummond diz:

    Hoje 5ª feira, fiz 2 comentários no Económico que foram apagados. Voltei a repetir e voltaram a apagar. Escrevi no Facebook deste pasquim cujo director é um cata vento, está sempre onde está o poder, a pedir para retirarem o meu nome e imagem do jornaleco, que nunca vejo on-line e só vi por causa do Pedro Tadeu. Lembrei o Director que é 5ª feira e nada publica sobre a resposta de Tadeu a Cunha Vaz. Como é um aldrabão deve ter-se comprometido em publicar a resposta do Tadeu na Quinta Feira de Santo António ou nunca

  6. lidia drummond diz:

    Que me desculpe o Doutor Cunha Vaz, mas as suas alegações sobre o “diz que disse” não lhe ficam nada bem. Quem foi o Amigo do Tadeu que lhe contou etc e tal? Isto mais parece uma crónica de comadres. Se tem provas que o Tadeu beneficiou indirectamente o Carrilhio, pessoa que eu detesto que ainda por cima é traidor e morde a mão dos que o ajudaram, porque não as expõe claramente. Serviu-se de uma entrevista e um plãcido entrevistador para desferir uma catanada (não estocada porque é africanista) cobarde contra o Tadeu. Seria melhor intimá-lo para um duelo, de que poderei ser madrinha e desde já proponho como arma um Canivete Suisso. Para seu Padrinho pode convidar uma dos seus empregados, agora Assessores do ALFORRECA, como o ex comuna António Figueira que bem podria ter sido o passrinho que lhe contou essas “calhandrices” do diz que disse mas não confirma.
    .

  7. ribeiro diz:

    Excelente reflexão. Parabéns.
    Na verdade, o cidadão, se não tiver privilégios (neste caso legítimos -P Tadeu), está sempre sujeito ao livre arbítrio dos jornalistas, da sua moral e independência, para defesa do seu bom nome. Com concentração dos media em poucas ” mãos”, algumas delas pouco recomendáveis, o futuro da liberdade de imprensa depende muito do carácter, da moral e coragem dos jornalistas.

  8. Simon diz:

    Lá mesmo para o fim do prazo legal, quando já ninguém se lembrar do assunto, pois até lá mais alguma malfeitoria do governo nos há-de abafar a memória.

  9. Antonio Cunha Vaz diz:

    Gostei da Sua análise. Peca num pequeno nada; numa entrevista, o entrevistado diz o q diz e assume. O entrevistador não é responsável pelo q o primeiro diz. Tadeu não tem honra jornalística para defender. Vai ter, porque segundo vi na sua adenda ao texto, duas formas de se defender. A primeira, em q diz q escreveu porque o DE não lhe deu espaço e a segunda porque o DE lhe deu espaço. À Tadeu. E Tadeu envergonha o jornalismo e os directores. Quando dirigia o 24 horas escreveu ou autorizou q escrevessem sem assinatura a identificar o autor uma calúnia contra mim. Tenho testemunhas de q se tratou de uma calúnia. Um amigo de Tadeu tendo tido ima conversa comigo e com outro jornalista -director-q ajudei porque é meu amigo, perguntou-me se, com tantas agências no mercado, eu contava ter sucesso. Respondi, ironicamente , q comoraria uns jornais e contrataria jns jornalistas. Levou à letra, contou ao Tadeu e isso foi usado para ajudar a ilibar Carrilho da canalhice q me fez e q em tribunal disse nunca ter sido com a intenção de me ofender e q foram apenas metáforas o q foi dizendo para me denegrir. Pois qdo Tadeu publicou o q publicou pus-lhe o competente processo e o honrado “jornalista” não só não assumiu a autoria da calúnia como não me questionou antes de escrever sobre se era verdade o q lhe tinham dito. Agora queria q o DE o tivesse feito qdo o q eu disse, a título de metáfora, claro, disse e “assinei”, isto é, disse enquanto entrevistado? Provou, embora com honra a sério e não a coberto de cobarde anonimato, do seu próprio veneno. E, ao contrário dos cidadãos normais como eu, tem dois jornais para defender o q julga ter. Aceite osmeus cumprimentos. O q digo sobre o processo Carrilho está na sentença e sobre o processo Tadeu, tambem. Dou alguns erros pois escrevo no iphone e já não vejo como via.

  10. João Goulão diz:

    acho que anda demasiada gente a tentar falar em assuntos, sem ter um mínimo de formação ou informação… e se somos livres para escrever “posts”, comentários ou até sermos “opinadores”, não teria lógica usar a mesma “net” em que o fazemos para fazer antes uma séria pesquisa sobre o tema? Pois… é difícil!

    O jornalismo segue regras!
    Eu não sou jornalista!
    Antes de escrever sobre um assunto pesquiso tudo o que posso para não dizer asneiras!

  11. Pedro Tadeu diz:

    Cara dr.ª Estrela Serrano
    Do seu comentário poderá inferir-se ser-me estranho o problema dos leitores quando querem exercer direitos de resposta. Não é. Quando fui responsável pela gestão de direitos de resposta, ao dirigir o 24 horas, tentei sempre dar um exemplo positivo,cumprindo escrupulosamente a lei e, algumas vezes, quando achava justo, até ia além da própria lei em favor da comunicação dos leitores. Recebi até elogios da ERC do seu tempo por causa disso (o que eu não gostava nada era de publicar deliberações da ERC, isso é verdade). Os jornais e os jornalistas, quase todos, infelizmente, não tratam bem os direitos de resposta dos leitores ou dos alvos das notícias o que é, simplesmente, uma vergonha inaceitável.
    Quanto à utilização da minha crónica para divulgar o que se passou, não foi com a intenção de acusar o Diário Económico de não publicar o direito de resposta – esperei algusn dias para dar oportunidade ao jornal de corrigir o problema, antes de enviá-lo, daí o prazo terminar apenas na quinta-feira. Se dei essa ideia, peço desculpa.
    Eventualmente cometi um abuso ao escrever na minha coluna sobre isto, mas, na minha perspectiva, a situação justificava-o não só para minha defesa – uma calúnia tem sempre uma divulgação maior do que uma retificação – mas por o caso me parecer, sob vários ângulos de análise, exemplar e, só por isso, relevante. Não me pesa, por isso, a consciência.
    Obrigado

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