O diferendo RTP-PS e a liberdade editorial

RTPPS

 

 

 

 

 

RTP e o PS  envolveram-se em discussão pública por causa do novo programa da RTP, “Portugal Pergunta”, no qual “as questões são postas ao entrevistado por uma plateia de pessoas selecionadas por empresas de estudos de mercado”.

De acordo com as notícias, o primeiro-ministro inaugura o programa no dia 10 e o líder do PS foi convidado para “depois das autárquicas” (segundo a versão do PS) e em data a acordar, (segundo a versão da RTP). O PS discorda da data proposta pela RTP e exige  que os restantes líderes partidários  sejam também entrevistados, uma vez que o país se encontra em período pré-eleitoral.

A meu ver, ambas as partes têm meia-razão. Senão vejamos:

Naturalmente que a RTP dispõe de “liberdade editorial” para criar novos programas e convidar para eles quem  entender, respeitando o seu estatuto de operador público e as regras do jornalismo. Também é certo que não compete aos partidos políticos imiscuirem-se nos critérios da RTP sobre quem e quando deve ser convidado para entrevistas. Aplicar-se-à aqui  o ditado popular “cada macaco no seu galho”, o que significa que se a RTP convidou o PS sugerindo uma data (é impensável que quisesse impôr uma data)  o PS aceita ou não aceita, sugerindo, se for caso disso, outra data. Em termos simples seria assim.

Mas as coisas não são tão simples. Desde logo, porque depois de as televisões (RTP incluída) andarem a dizer que não podem fazer debates sobre autárquicas porque não aceitam o princípio da igualdade de oportunidades com todos os candidatos e por isso não os fazem, a RTP vai iniciar um programa com modelo inovador e popular em vésperas de eleições e convida para ele o primeiro-ministro que não se tem coibido de publicamente associar o seu cargo governamental às candidaturas autárquicas do seu partido, seja ou não o tema da entrevista  a governação do país e não as autarquias locais. A iniciativa, independentemente do seu valor “facial”, só podia  dar “bernarda”, como deu e irá certamente dar com os restantes líderes partidários.

Invocar a “liberdade editorial” da RTP, como fez o seu director, é neste caso, uma espada de dois gumes. Primeiro, porque em períodos eleitorais, de acordo com a lei portuguesa, os critérios editoriais  são restingidos pela obrigatoriedade de tratamento equitativo das diversas candidaturas, para mais, tratando-se do operador público obrigado a sobrepôr o princípio da equidade ao princípio da maximização de audiências.

Em segundo lugar, a relação entre as televisões e os partidos políticos não permite “gritos do Ipiranga” a uns ou a outros porque, na verdade, os debates e as entrevistas eleitorais são negociados entre os staffs partidários e as televisões, com pormenores que vão desde aspectos de realização, delimitação de temas, etc.. Digamos que os jornalistas aceitam nestas circunstâncias “negociar” a sua “liberdade editorial”, como alías acontece noutros países democráticos.

Daí que, sendo certo,  como disse o director de Informação da RTP, que “não são as lideranças partidárias que decidem o calendário das entrevistas da RTP”, também é verdade que em períodos eleitorais os calendários e os procedimentos são negociados com as lideranças partidárias.

Menos feliz me pareceu o argumento do director ao afirmar: “Estamos a utilizar a mesma liberdade editorial de quando convidámos José Sócrates para comentar”, já que  uma coisa nada tem a ver com a outra. Ou então se tem é  no sentido contrário ao pretendido pelo director. É que os espaços televisivos dos políticos-comentadores também são negociados entre as partes, desde o cachet aos temas e aos moderadores (sucedendo porém que no caso de Sócrates, por vontade do próprio, não há cachet).

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Uma resposta a O diferendo RTP-PS e a liberdade editorial

  1. nao discordando do post lembro só que a BBC tem dado milhões de mais valias aos ingleses com a expansão das organizacoes , ong, universidades e governo bem como dá a conhecer as riquezas paisagisticas , minerais etc do mundo aos empresarios e governo ingles. Todos os países precisam dum meio proprio que faça a propaganda do poder. Claro que nós somos originais e continuaremos a depender dos malandros da troika para pagar os ordenados e resgatar os bancos dos sanguessugas dos banqueiros padrinhos dos que governam e compram submarinos.

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