Não vamos ver “arruadas” nas televisões? olha que pena!

Que me desculpem os senhores directores das televisões e outros partidários da impossibilidade de cobrirem as autárquicas com a presente lei eleitoral, mas não concordo com eles.

Que me desculpem também os membros dos partidos que desataram a criticar a CNE para não criticarem os directores das televisões que decidiram fazer blackout à campanha porque não convém desagradar aos jornalistas…

Numa coisa estou de acordo com a generalidade das opiniões: a lei eleitoral para as autarquias necessita  de ser revista. Por exemplo, clarificar que o artigo 39.ª sob a epígrafe  “Propaganda eleitoral” não se aplica à  cobertura jornalística – é, aliás, o único artigo que fala em “igualdade de oportunidades das candidaturas”. E que o artigo 49.ª relativo aos “Órgãos de comunicação social” refere “tratamento não discriminatório às diversas candidaturas” (o que é diferente de “igualdade de oportunidades”). Alargar eventualmente os tempos de antena, conferindo-lhes  dignidade.

-Dizem os directores que não fazem a cobertura dos candidatos para não arriscarem  pagar coimas. Nem vale a pena discutir até onde este argumento nos levaria.  Essa decisão significa que para não correrem o risco de uma multa, os directores correm um risco muito mais “caro” a longo prazo, ao não cumprirem o dever de informar, razão de ser da sua existência, privando os cidadãos do direito à informação.

– Mas se não cobrir a campanha é não acompanhar as  “arruadas” – termo que os média criaram para cobrirem o folclore das campanhas eleitorais – não se perde nada, já  que do ponto de vista da informação substantiva pouco valem. Trata-se de ocasiões em que o valor dos candidatos se mede pela multidão que arrastam e em que os repórteres se arrastam atrás deles de microfones em punho e câmaras ao ombro à procura de um dichote.

As televisões habituaram os políticos a este tipo de cobertura das campanhas eleitorais. E todos querem uma câmara de televisões e um microfone atrás, mesmo que inventem uma arruada só para aparecerem no telejornal. Como se a cobertura de uma campanha se limitasse a debates e “arruadas”.

Mas há uma ideia que não pode ser deixada em claro. O “poder editorial” (expressão agora em voga), como todos os “poderes” é usado para o bem e para o mal. O “poder editorial” é o poder de publicar e era até há alguns anos um dos maiores poderes dos jornalistas. Consiste na capacidade que o jornalista possui de escolher quem tem voz no espaço público, como e quando o jornalista decide que alguém tem direito a ter voz.

Ora, esse poder é hoje desafiado pelo desenvolvimento das redes sociais onde todos temos voz, incluindo os candidatos eleitorais. Portanto, se os directores querem reivindicar a sua condição de jornalistas para não aceitarem que a CNE ou a ERC decidam os seus critérios editoriais (no que fazem bem), não reivindiquem o “poder editorial” porque esse não é mais exclusivo dos jornalistas. Reivindiquem sim, a liberdade de imprensa, isto é, o direito de informar de acordo com a regras da sua profissão, observando o pluralismo e a diversidade, para que seja garantido aos cidadãos o direito a ser informados.

A não cobertura das eleições é um mau momento do jornalismo português que assim revela não ser capaz de cumprir a sua missão, atemorizado pela ideia de arriscar.  Ou o jornalismo já não é uma “profissão de risco”?

 

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6 respostas a Não vamos ver “arruadas” nas televisões? olha que pena!

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  3. cristof9 diz:

    não vejo abordado o facto de ser proibido o uso da web para espalhar mensagens eleitorias. Será que agora a web é controlavel? não fazia ideia que o poder estava tão dentro do Tempora/GCHQ´s ingles ou NSA dos EUA. Ninguem se preocupa com isto? A internet cresceu porque não foi refem de nenhum interesse. Se gostam que ela cresça mais assumam a V. cota parte dos riscos e não deixem que ninguem a venha regular. Pensem outra vez: será que é bom dar o ouro a guardar ao bandido?

  4. maria diz:

    …olha que pena!!! Não continuar a ouvir na rua o que já ouvia dentro de “casa” as mentiras, as calunias, as falsas declarações, as confusões e etc… olha que pena, eu não poder ver aquilo que já não iria ver !

  5. Muito obrigada, Deolindo, os média e o jornalismo são a minha área de trabalho e de investigação.São campos em constante mutação que requerem questionamento e reflexão permanentes.Procuto trazer a este blo alguma dessa inquietação,ainda bem que aprecia, sobretudo vindo de si…Abç. 🙂

  6. Vicente Silva diz:

    Estrela!Não sendo eu jornalista,comentador,analista ou qualquer outra coisa que se prenda com jornalismo,aprecio todavia o que sobre a matéria vai escrevendo nos seus postes.Não o faço por
    lisonja ou qualquer outro motivo que não seja o de lhe manifestar a minha admiração pela forma
    como aborda todas as questões relativas à comunicação social nomeadamente as suas carências,excessos e defeitos.
    Em tempos idos,viajou comigo uma jovem jornalista do Der Spiegel destacada para fazer uma reportagem na ex-colónia de Moçambique e recordo que uma das grandes preocupações dessa
    jovem eram o cumprimento dos preceitos éticos inerentes ao jornalismo nomeadamente a verificação dos factos,a verdade e objectividade entre outros.
    Recordo este episódio tão só pelo facto de tais princípios serem coincidentes com os que a Estrela vem defendendo regularmente neste blog e daí o meu grande apreço pela batalha que
    vem travando em prol de um jornalismo a sério, seja ou não tempo de eleições.
    Só dessa forma o jornalismo cumprirá a missão que lhe compete na sociedade e se tornará credível e útil perante a mesma.

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