Nestas autárquicas os jornalistas escolheram os líderes dos partidos mas os cidadãos vão escolher os autarcas, tenham ou não partido

A forma que as televisões encontraram para contornar a lei eleitoral para as autarquias locais –  que obriga os órgãos de comunicação social à não discriminação das candidaturas – está a ter efeitos perversos.

Não é o facto de não haver debates entre candidatos nas televisões ou de os passeios dos candidatos – as chamadas “arruadas”–  terem deixado de encher os telejornais como era costume.

A perversidade da situação reside na decisão das televisões –  para evitarem ser penalizadas pela Comissão Nacional de Eleições por não darem cobertura a todas as candidaturas –  de darem voz apenas aos líderes partidários que intervêm em acções de campanha dos seus candidatos.

O resultado é o que temos visto. Nas televisões só falam Passos, Portas, Seguro, Jerónimo, Catarina e Semedo. E falam de temas nacionais porque se falarem de temas locais não passam nas televisões.

Temos assim que as televisões transformam uma eleição para as autarquias locais numa  eleição nacional. Em eleições autárquicas os cidadãos não votam em Passos, Portas, Seguro, Jerónimo, Catarina ou Semedo.  Votam nos candidatos locais, mesmo naqueles que as televisões não querem.

A responsabilização da CNE pela insólita situação criada pelas televisões não tem sentido. Mesmo que a CNE decidisse não dar andamento a queixas dos partidos que se sentem discriminados, haveria sempre a possibilidade de estes recorrerem para os tribunais e estes interpretarem a lei no sentido que lhe dá a CNE. Acresce que não é a CNE que faz as leis mas é ela que tem de as aplicar segundo as regras do Direito e não segundo as lógicas dos média.

O precedente criado pelas televisões é gravíssimo do ponto de vista do funcionamento da democracia. Ninguém as obriga a andar atrás dos candidatos. Mas andar atrás dos líderes dos partidos que apoiam os candidatos discrimina os candidatos que não têm partido nem líder.

O critério das televisões é apostar em candidatos “viáveis”. O critério da lei é considerar que à partida todos são “viáveis. A falácia de que não se pode tratar de maneira igual o que é desigual (querendo dizer-se que há candidatos e partidos pequenos e fracos e candidatos e partidos grandes e fortes e que só estes merecem aparecer nas televisões) é profundamente antidemocrática.

Em democracia, como numa maratona olímpica, os candidatos partem em igualdade de condições e só no fim se vê quem ganha. Na próxima corrida, os  corredores, incluindo os vencedores da anterior, partem novamente em condições idênticas. É assim também em eleições. Mesmo os mais fracos devem ter a mesma oportunidade dos mais fortes. Percam as vezes que perderem.

Não são os jornalistas que escolhem quem são os candidatos “viáveis” e os que não são. Nestas autárquicas os jornalistas escolheram os líderes dos partidos mas os cidadãos vão escolher os autarcas, tenham ou não partido.

Mas nem tudo está perdido. Há excelentes reportagens em alguns jornais. Os dossiês do Diário de Notícias desta segunda e terça-feira valem por mil arruadas nas televisões. Ao contrário, os discursos dos líderes para televisão ver são uma cacofonia insuportável.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Comunicação e Política, Jornalismo, Sociedade, Sociologia dos Média, Televisão com as etiquetas . ligação permanente.

2 respostas a Nestas autárquicas os jornalistas escolheram os líderes dos partidos mas os cidadãos vão escolher os autarcas, tenham ou não partido

  1. Pingback: As televisões e a campanha eleitoral | VAI E VEM

  2. antonio cristovao diz:

    parece oportuno(para eles) resguardar os partidos que têm desgovernado o país. Atrevo-me a dizer que se aparecerem propostas com pés e cabeça a razia será nitida. Alguem acredita que o seguro vale algo ou o joker o Be ou a PC tem ideia do que seria as suas ideias aplicadas?tristes eleitores que se mobilizam para culpar a troika/merkl mas que são tão ineficientes a arranjar alternativas séria.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s