Sobre a “governamentalização” da RTP

RTPBBC.svgA  RTP volta a estar em discussão através de declarações  confusas e perturbadoras sobre modelos e conteúdos,  vindas ora do ministro da tutela, sobre  uma alegada “percepção do risco de governamentalização“cujo remédio será  os gestores serem nomeados por um grupo de “sábios” (The Trustees, da BBC), ora de responsáveis de “estudos”, segundo os quais  “serviço público é dar às pessoas o que elas querem“.

Estas declarações levaram-me a recuperar  um artigo  publicado já há uns anos, no Le Monde, intitulado “Televisão pública ou televisão do Estado? da autoria de David Levy,  investigador da Universidade de Oxford.

Conta ele que um jornalista da BBC entrevistava o antigo embaixador americano na ONU, John Bolton. Às tantas, o embaixador  perguntou ao jornalista quanto tempo a BBC seria ainda propriedade do Estado e porquê. Resposta do jornalista:

“Si John Bolton n’a pas encore compris la différence entre un service appartenant à l’Etat et un service financé par des fonds publics, il est probablement trop tard pour espérer qu’il y parvienne jamais (…).  Penser que la BBC est à la botte du gouvernement parce qu’elle est financée par l’argent public est erroné. La charte fondatrice nous protège de toute intervention ministérielle tout comme elle oblige chacun d’entre nous à pratiquer un journalisme indépendant.”

É pena que nenhum responsável da RTP responda ao ministro Maduro, quando ele acena com o modelo da BBC para evitar “a governamentalização”, como o jornalista da BBC respondeu ao embaixador americano. É que, seja qual for o modelo de nomeação dos gestores e sejam quem forem os escolhidos,  a carta fundadora da BBC  protege-a de toda a intervenção governamental, obrigando os seus jornalistas a praticarem um jornalismo independente apoiado em princípios estatutários e contratuais da televisão pública, tais como:

i) uma cultura política que reconhece esses valores;
ii) uma cultura profissional que preserva uma independência sem concessões;
iii) um sistema de financiamento que incita os profissionais a preocuparem-se em primeiro lugar com os cidadãos.

O problema da “governamentalização” da RTP, se existe, não está no modelo de escolha dos gestores, ou não está apenas nele. Desde logo, falta em Portugal ao actual  poder político uma cultura  que reconheça os valores do serviço público e a necessidade de um sistema de financiamento que lhe garanta estabilidade e independência.

Por outro, falta ao seu corpo de profissionais uma cultura profissional enraizada sobre os valores do serviço público e a convicção de que o serviço público se afirma pela qualidade, pela inovação, pela diversidade, pelo pluralismo e pela universalidade.

É uma cultura que se constrói ao longo do tempo,  que não se compadece com o “mercado de transferências” entre administradores e directores que num dia estão numa televisão ou grupo de média privados  e no dia seguinte já estão no serviço público, sem qualquer período de “nojo”. Levam os “segredos” e as estratégias de uns para outros, estão onde os quiserem e lhes pagarem melhor.

É a ordem natural das coisas, dirão alguns. Pois seja. Mas então não confundamos as coisas. A RTP não é a BBC (apesar dos problemas actuais da BBC) nem Portugal é o Reino Unido.

Em Portugal a governamentalização não é defeito, é feitio. Em 2004, n0 governo de Santana Lopes o ministro Gomes da SIlva  pressionou a TVI para despedir Marcelo Rebelo de Sousa por criticar o governo.

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4 respostas a Sobre a “governamentalização” da RTP

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  3. Antónimo diz:

    deve ter sido a única coisa de jeito que saiu do governo santana lopes, acabar com a alegre campanha para a presidência do professor martelo

  4. antonio cristovao diz:

    Concordando com o post chamo a atenção para o “lucro” real que a BBC tras para o seu país na influencia que exerce no espalhar dos pontos de vista dos interesses para Inglaterra e da informação/pequisa e descoberta dos mais recantos do mundo que aporta para serviços/interesses ingleses.Publicidade bem feita e muito bem executada que as criticas ao despesismo BBC- que deve ser- não contabiliza distorcendo a analise total.

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