Portas, o malabarista da palavra e do gesto

Os portugueses estão a ser  diariamente sujeitos a manobras de desinformação indignas de um país democrático cujos objectivos não são difíceis de descortinar.

O governo serve-se dos meios de comunicação social para lançar balões de ensaio sobre medidas que fontes anónimas deixam “cair”, destinadas a provocar reacções que no início são sempre fortes e violentas. Depois, deixa passar uns dias ou semanas até a “fúria” esmorecer e quando os balões se tornam factos os ânimos já estão mais calmos e  os espíritos  preparados para a aplicação da dose. Entretanto, novos balões são lançados e a estratégia repete-se.

Hoje foi a TSF a “ter acesso” a um documento onde se diz que  as pensões de sobrevivência vão ter cortes a partir de Janeiro. O efeito produzido foi o esperado: o PS reagiu com dureza:  “indignidade”, “inaceitável”… como era previsível. Os outros partidos reagiram também, a CGTP fala de “terrorismo social”, a UGT diz que o governo “está a esticar a corda”. Daqui a uns dias há outras  notícias e desta  lembrar-se-ão os que entretanto ficaram ainda mais desesperados mas com  esperança de que alguém do governo a desminta.

Foi assim com o segundo resgate que já estava a ser tratado em Bruxelas (a notícia vinha de “Bruxelas” em off e a mesma “Bruxelas” desmentiu depois em on). “Bruxelas” conseguiu duas manchetes no Público, o suficiente para assustar os portugueses e dar oportunidade ao governo de sair “vitorioso” porque afinal (por agora) não há novo resgate.

Troika não aceitou rever défice, mas TSU dos pensionistas «não avança», anuncia PortasE veio Portas, o malabarista da palavra e do gesto, enganar os cidadãos e seduzir os jornalistas que elogiaram a sua capacidade de passar a mensagem. Disse Portas que  não há tsu dos pensionistas, não há pacote de austeridade. Conseguiu tudo, depreendia-se do ser ar ufano  e teatral. Não disse, é claro, o que o governo vai agora dizendo aos poucos através das suas fontes anónimas bem colocadas nas redacções de jornais, rádios e televisões.

Os jornalistas vão, voluntária ou involuntáriamente, servindo  a estratégia. O seu ofício é publicar, como costumam dizer, se possível publicar primeiro que a concorrência e, ainda melhor, publicar em exclusivo. Para isso, precisam de “cultivar” as  fontes que os alimentam. Não estão em posição de recusar, questionar ou reflectir sobre a probabilidade de estarem a ser instrumentos da estratégia.

Há, é claro, o reverso da medalha: o caso Rui Machete”, trazido a público pelo Diário de Notícias, no seguimento de outros no passado e no presente,  permite afirmar uma das função do jornalismo – vigilante (watch dog) da democracia. Porém, tão ou mais importante é a capacidade do jornalismo de resistir ao poder de influência das fontes, sejam governamentais, políticas, económicas, ou outras. Resistir a tornar-se instrumento de estratégias e manobras de desinformação.

Os jornalistas têm o dever de não deixar que os cidadãos sejam enganados por governantes habilidosos e bem falantes ou por quem lhes dá informações bombásticas sem dar a cara, para a seguir as desmentir. Tem sido assim nas últimas semanas.

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4 respostas a Portas, o malabarista da palavra e do gesto

  1. Pingback: Portas, o malabarista da palavra e do gesto

  2. Pingback: Por falar em contraditório… | VAI E VEM

  3. A Grecia já esta a querer sair do pantano. O joker de lá já levou para contar

  4. Vicente Silva diz:

    Para além de “malabarista da palavra e do gesto,”este homem ajusta-se na perfeição ao que Neidermann definiu brilhantemente como “o homem que gosta de fazer o papel de mártir (“a troca do mártir”) e realiza-se na mortificação (o fascínio pelo Poder) para depois poder fazer o papel de necromobil (o veículo que varre os cadáveres de nós mesmos).”

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