“O País pergunta” ou a representação simbólica de uma democracia representativa

Mais de 1 milhão viu Passos no programa O País PerguntaO programa O País perguntaestreado ontem pela RTP, suscitou desde o seu anúncio expectativas exageradas, potenciadas pela intervenção da CNE impedindo a sua realização em período eleitoral para as autárquicas com a presença apenas do PM e do líder do maior partido da oposição, AJSeguro. Porém, a versão portuguesa não foi nem melhor nem pior que outras versões estrangeiras do mesmo formato. Como não podia deixar de ser correspondeu ao nível dos protagonistas;

Organizado como espectáculo mediático, o programa cumpriu a função fática da televisão,  estabelecendo a comunicação entre partes até então praticamente incomunicáveis. Os cidadãos comuns não têm acesso directo ao primeiro-ministro, muito menos podem questioná-lo livremente. O programa proporcionou esse acesso a um grupo de cidadãos tidos como representativos da população portuguesa.

Cumpriu  também outra das funções da televisão – ser agente de persuasão – subvertendo os mecanismos tradicionais de representatividade ao “obrigar”, o primeiro-ministro a explicar-se e a dirigir-se directamente ao “grande público” através de cidadãos representativos desse público.

Trata-se de um tipo de programas geralmente sem conteúdo concreto ao nível da substância, que tem como objectivo a representação simbólica de uma democracia participativa em que cidadãos comuns questionam os líderes  É a chamada “diplomacia do gesto” em que os actores políticos tentam através da televisão “emitir sinais” para os seus povos.

No programa de ontem os cidadãos seleccionados expuseram situações concretas do seu dia a dia, com raras excepções, e a propósito delas pediram ao primeiro-ministro que dissesse “o que pensa”, “como vai “resolver”, “o que vai fazer”. Estavam ali para se dirigirem ao PM e conversarem com ele. O PM tratou-os pelo nome… Ana, Pedro…. sentiram-se próximos dele. Saíram satisfeitos como se viu nos comentários que fizeram no final, à saída dos estúdios.

O ritual televisivo é  intimidatório para quem não está habituado ao “palco”. A maquilhagem, a postura, as luzes, o silêncio antes da entrada “no ar”, a necessidade de manter o sorriso, saber para onde olhar, as instruções dos técnicos que realizam a emissão, o microfone, a pose, são factores que interferem no pensamento e na expressão verbal. Pode dizer-se que tendo isso em consideração os presentes estiveram bem. Não se esperava deles que antecipassem o valor-notícia de cada pergunta. Estavam ali com as suas preocupações e não com a agenda dos jornalistas ou dos políticos. Estes têm no programa alguma coisa para reflectirem, se quiserem ser humildes. 

O PM fez o seu papel: ouviu, concordou com a maioria dos cidadãos, mostrou-se mais “humano” do que em entrevistas jornalísticas ou em debates parlamentares. Tanto lhe bastou para poder dizer que valeu a pena. E, contudo, mostrou uma vez mais que não tem uma ideia nem uma estratégia para o País, disse banalidades ou generalidades. Deixou a notícia do orçamento rectificativo. Podia ter brilhado porque o formato era-lhe favorável. Não brilhou, não por defeito do programa ou das perguntas mas porque lhe falta o substracto que se exige a um líder.

Finalmente, o moderador, jornalista experiente e com domínio do meio televisivo, com excelente presença televisiva, Carlos Daniel esteve tenso, por vezes sobrepondo a sua voz à dos protagonistas. Pontuou algumas das perguntas, obrigando o PM a decidir a quem respondia primeiro, se a quem perguntava se ao jornalista. A função do jornalista não é fácil em programas desta natureza, e esse é um dado a melhorar em próximas edições.

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4 respostas a “O País pergunta” ou a representação simbólica de uma democracia representativa

  1. Pingback: Os cidadãos e os políticos | VAI E VEM

  2. Pingback: Por falar em contraditório… | VAI E VEM

  3. Fernando Salgado diz:

    Não tenho a mesma opinião esquerdista de quem todos são uma merda tudo mal feito…

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