Por falar em contraditório…

Acho curioso que alguns jornalistas e comentadores critiquem o modelo do programa “O País pergunta”, estreado na RTP na última 4.ª feira em que um grupo de cidadãos fez perguntas ao primeiro-ministro, com o argumento de que o modelo do programa não tem contraditório porque esse só os jornalistas sabem fazer.

Como se não assistissemos quase todos os dias a exemplos de instrumentalização de notícias  (ver por exemplo, aqui e aqui) que alinham em estratégias de fontes oficiais, governamentais ou outras, reproduzindo acriticamente  notícias que depois se revelam serem apenas balões de ensaio.

Hoje soubemos que os parceiros da coligação governamentel se entretêm a fazer fugas de informação para os media para se vingarem um do outro. O caso prende-se com os cortes nas pensões de sobrevivência.  A notícia diz assim:

“Ao que o PÚBLICO apurou, o vice-primeiro-ministro não esperava uma fuga de informação, como aconteceu na TSF, no domingo, sobre a medida cujos contornos, segundo os centristas, não estavam ainda definidos, apesar de já estar acordada com a troika na oitava e nona avaliações. Ainda para mais porque no CDS se acredita que a fuga de informação veio do Ministério das Finanças.”

Ora, quem acompanha  estas coisas constata que a TSF se tem distinguido por possuir fontes bem colocadas no Ministério das Finanças, a avaliar pelas “cachas” a que tem tido acesso relativas a matérias dependentes daquele ministério.

“Traduzindo” a notícia do Público, temos que Portas quis fazer “um número” na conferência de imprensa da passada quinta-feira  quando anunciou que não vinha aí austeridade e surpreendeu a ministra das Finanças com a taxa sobre as empresas de electricidade. Esta, ou alguém por ela,  resolveu então vingar-se de Portas e dar à TSF a notícia do corte nas pensões de sobrevivência, assunto que no Governo cabe ao CDS .

Como não há duas sem três, diz o Público que “ontem mais uma fuga de informação levou o CDS a reagir. Segundo o Diário Económico, a ministra das Finanças quer avançar com uma proposta de corte de 15% das subvenções vitalícias dos titulares de cargos políticos.”

E assim vão as notícias. Falar de intoxicação é dizer o mínimo. Onde está o escrutínio de tanta desinformação? Quem faz o contraditório destas notícias? Ou o contraditório é só para entrevistas na televisão?

A avaliar pela sucessão de fugas de informação dos últimos dias, o contraditório ao PSD é feito pelo CDS e vice-versa, enquanto os jornalistas andam a apanhar bonés.

 

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5 respostas a Por falar em contraditório…

  1. Antónimo diz:

    Estrela Serrano, Não é propriamente o lado do espectaculo e o já saber o que ali está o que me interessa.

    O que eu quero é ser informado, e quanto a isso Vasco Pulido tem razão, aquilo é um mero tempo de antena, onde Paulo Ferreira e sus muchachos de turno nos dizem em quem havemos de votar. O voto certo é naqueles rapazes que admite convidar para o formato. Para isso não preciso de um director de informação, basta-me um produtor de conteúdos.

    Não tenho a mínima dúvida de que Rui Gomes da Silva teve razão quando disse de Marcelo o que disse, passo bem sem dez anos de auto-campanha para a Presidência.

    Tal como não tenho dúvidas que ir buscar Cavaco ao Possolo com batedores montados, para o conduzir à entronização presidencial no CCB, como fez Ricardo Costa, contribuiu para o lindo sarilho em que estamos metidos, nada servindo para nos esclarecer.

    O peditório da civilização do espectáculo passa-me ao lado. Quero é ser informado. Quanto a contraditório preferia ter tido direito a ouvir o PCP e João Ferreira do Amaral quando foi do euro que agora ter de penar com o inevitável Sol na terra europeia que nos foi prometido por teresas de sousa e outros figurões mediáticos mostrando ao povo aquilo que devia pensar.

  2. Vicente Silva diz:

    Partindo do pressuposto que toda a pergunta tem uma resposta,Pulido Valente tem toda a razão no que afirma.Como espectáculo mediático não ficou a dever nada ao que se faz noutros países; mas como espaço informativo,que seria o mais adequado à situação em que vivemos,valha-nos S.Bento da porta aberta!..Se ao menos o nome do programa fosse outro que não o de “O país pergunta”,como por exemplo o de “Conversas fiadas”,para não citar conversas de outros tempos,seria mais aceitável.

  3. Antónimo, não concordo com o que escreveu Pulido Valente. O raciocínio dele levaria a que nunca os cidadãos estariam à altura de questionar o chefe do Governo ou os líderes da oposição e só os jornalistas teriam esse direito. Ora o objectivo do programa “O País pergunta” não é o de um debate jornalístico, para isso há outros formatos. E sobre não haver contraditório, os espaços dos comentadores também não têm contraditório, os jornalistas estão lá para lançar as deixas combinadas previamente…

  4. Antónimo diz:

    O problema do Programa (e nisso tanta razão tem Pulido Valente, que lhe chama “puro tempo de antena”, como o PCP, que lhe chama “frete”) não é de todo o modelo ou o papel dos jornalistas, mas sim o facto de constituir aquilo que VPV e PCP lhe chamam. Paulo Ferreira é absolutamente incompetente para o cargo que ocupa (e, parece-me, que até para jornalista, mas isso já são outros contos).

  5. Certo. Carpir transparencia em politica espectaculo é estar a carpir em enterro de defunto desconhecido. è um espectaculo em que todos têm obrigação de saber as normas e não virem “ofender-se” hipocritamente. Deste tipo de politicos não se pode esperar mais que portisses. Apelar ao bom senso dos eleitores é pregar aos peixes.

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