O contraditório veio pela voz de Catroga – o grande negociador do resgate mais conhecido por “pintelho” – que logo sentenciou que José Sócrates “devia estar definitivamente enterrado” e “a ser julgado em tribunal pelos erros de gestão”. Depois, veio Paulo Rangel, habitualmente comedido, que também se passou dos carretos, atirando-se a Sócrates e a quem o entrevistou.
A seguir à entrevista, a Antena 1 organizou um fórum para os ouvintes se pronunciarem sobre a entrevista. Do que ouvi, a maioria gostou.
Entretanto, jornalistas e comentadores entretiveram-se durante o dia a discutir o significado das entrevistas de Sócrates, primeiro ao Expresso, depois a jornais e rádios. “Será que quer voltar à política, candidatar-se a isto ou àquilo?”, interrogam-se.
Há momentos, na RTP1, Morais Sarmento juntou-se ao coro dos incomodados com o reaparecimento de Sócrates. José Rodrigues dos Santos questionou-se sobre o significado de tanta entrevista, como se fosse uma coisa do outro mundo os jornalistas entrevistarem figuras públicas quando publicam livros. José Rodrigues dos Santos que o diga, entrevistado na sua própria “casa” sempre que publica um livro.
A explicação para tanto alarido tem uma vertente, diria mais visível e mais óbvia, de natureza política, que é a seguinte: o PSD sabe que Sócrates tem coisas para contar sobre o PEC IV. Os jornalistas também sabem que as estórias que contaram sobre os dinheiros, a licenciatura, o Freeport, o “atentado contra o estado de direito”, etc., foram em grande parte urdidas para o derrubar. Sabem, pois, que consciente ou inconscientemente, foram instrumentalizados contra Sócrates.
Mas há outra razão para tamanho incómodo com as entrevistas de Sócrates. É que Sócrates defendeu uma tese e apresentou-a à discussão pública num livro que aí está, Não receou expô-lo e expôr-se à análise e à crítica. Aqueles que andaram a compará-lo a Relvas e lhe criticavam o “inglês técnico” não suportam que ele tenha feito um mestrado na Sciences Po. E que se prepare para fazer um doutoramento. Isso dói-lhes mais do que tudo. Preferiam um Sócrates apenas a “politicar” (para usar a expressão de Lula).
Até Pacheco Pereira, na Quadratura, está atrapalhado com a explicação para o regresso de Sócrates.
Calem o homem, antes que isto acabe mal!