Sobre a degradação de um certo tipo de jornalismo

CMTV bárbara guimarãesEste tipo de “reportagens” não pode deixar de causar repulsa. Sobretudo, coloca a questão de saber o que é ser jornalista hoje.

Interpelar uma mãe em plena rua, perguntando-lhe se é verdade que o padrasto a tentou violar quando era criança, no momento em que ela acomoda os dois filhos menores na viatura para os levar à escola, não é jornalismo. Mesmo que a repórter em causa empunhe o microfone de um canal de televisão, possua (presume-se) carteira profissional e esteja inserida numa redacção de jornalistas. Mesmo que alguém na redacção lhe tenha encomendado aquela “reportagem” ninguém a podia obrigar a fazer aquela pergunta, em qualquer circunstância, muito menos a uma mãe na presença dos seus filhos menores. Mas se algum chefe a obrigou, ela só tinha de dizer “não”. E se ninguém a obrigou e a iniciativa foi sua, então espera-se que a repórter (será estagiária?) seja urgentemente sujeita a uma acção intensiva de formação em matéria de ética e deontologia profissional.

O facto de a mãe em causa ser uma vedeta de televisão e o pai dos seus filhos ser um político e académico com notoriedade, não justifica o “assalto”. Mesmo que um deles, ou ambos, tenham, noutras ocasiões, aberto a porta da sua privacidade.

Ser jornalista pressupõe uma ética e uma deontologia baseadas no respeito pela protecção da vida privada, estejam ou não em causa figuras públicas, que só admite excepção em nome de um interesse público indiscutivelmente maior.

O jornalismo que fomenta o voyerismo e confunde informação com devassa, é um jornalismo que envergonha a profissão e despreza os cidadãos.

Esta peça televisiva é mais uma prova da degradação dos padrões de qualidade e de ética que atingiu algum jornalismo, nomeadamente  televisivo.

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12 respostas a Sobre a degradação de um certo tipo de jornalismo

  1. Pingback: O top-ten do Vai e Vem em 2013 | VAI E VEM

  2. Carlos Mendonça diz:

    Apenas se está a abordar esta notícia como se fosse a excepção à regra, mas de facto as excepções são regra, retirando a ética da notícia tendo em vista uma maior visualização em que a notícia passa a ser ela… a notícia.
    As condições precárias em que trabalham os jovens jornalistas, o excesso de profissionais e o envolvimento dos média em tudo que seja mediático e que e apenas possa ser rentável, condiciona e transforma a desinformação em informação, desde que, seja consumida e absorvida por pessoas em quantidades mais ou menos aceitáveis, que por sua vez e enquanto consumidores de todas as formas de informação vamos estimulando o estado social em que vivemos, rentabilizando empresas lucrativas com e apenas intenções capitalistas.

  3. Comentar é fácil, mas quem se identifica como jornalista; será que é?

  4. Desculpe, Rui, chamei-lhe António..:-)
    Sobre a sua pergunta, sim a protecção da privacidade e da intimidade é um direito dos cidadãos. Há que ponderar esse diretos com outros em presença e com o interesse público do que se pretende publicar. Pode ler aqui alguma jurisprudência sobre a matéria. http://www.pgr.pt/pub/Pareceres/VII/1.html

  5. Rui Santos diz:

    Não é António 😉
    Estive a ver com o restart tv e existem várias versões da peça, A que deu no Domingo no noticiário das 20 por exemplo tem exatamente as mesmas imagens, mas só com comentários em voz off. (para compensar e porque não deveria estar suficientemente apelativa, passaram de seguida um resumo dos dias anteriores, em jeito de novela dentro de um noticiário).

    Mas dirigo-me a si apenas para lhe perguntar (a si ou a algum jornalista) sobre a segunda parte do meu comentário, se existe algo no código respeitante ao direito à privacidade da divulgação da morada. Ao ver as reportagens que indico, é bastante fácil saber onde mora uma figura pública, será que isso deveria ser público?

  6. Obrigada, António. O seu comentário levou-me a rever a peça linkada e qual não foi o meu espanto quando verifiquei que não é a peça inicial, tendo sido retirada a pergunta da repórter (era uma voz feminina). Posteriormente vim a saber que a repórter não tem carteira profissional, o que significa que não é jornalista. A ser assim, trata-se então de uma prática ilegal que a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas devia investigar.

  7. Rui Santos diz:

    Interpelar uma mãe em plena rua, perguntando-lhe se é verdade que o padrasto a tentou violar quando era criança, no momento em que ela acomoda os dois filhos menores na viatura para os levar à escola, não é jornalismo.

    Concordo com o seu artigo, e acho a reportagem muito para além do aceitável, não sendo jornalista não conheço o código, mas acredito que se passaram muitas vezes as fronteiras neste caso.

    No entanto não queria deixar de comentar que a sua afirmação não é precisa, pelo menos no link que agora acabo de ver. O jornalista “apenas” pergunta à mãe de Barbara se estão bem, o comentário sobre o alcoolismo e a violação está em off sobre a peça. A gravidade existe, mas a perguntao não foi feita à frente das crianças. (Que claro poderão ver a sua imagem com esse comentário em voz off).

    Não sei se o código diz algo sobre o filmar da sua casa, mas para mim que ali estudei fiquei a saber onde mora Barbara Guimarães… Não mês parece também correcto embora com menor gravidade.

    Parabéns pelo blog.

  8. António da Fonseca Costa diz:

    Eu perguntaria à “jornaleira” se ela é mesmo filha do pai que diz ser.

  9. Patricia Oliveira diz:

    Questionam se foi o jornalista obrigado?? Mas há duvidas!
    Eu como jornalista sei bem o Código deontológico, e logicamente todos sabem.
    Agora ou ele faz o que lhe mandam ou vai para a rua. E quem faz isso é o Povo que gera audiência a Canais como CMTV ou TVI. Se ninguém vir, não gera audiência logo o editor muda a sua visão e a forma como ”obriga” o jornalista a trabalhar.

  10. Ricardo Laires diz:

    Grande texto acerca do que deve ser a atitude do jornalista.Assim como há um Conselho Disciplinar na Ordem dos Médicos,há mto que se faz sentir a necessidade de uma entidade equivalente para os jornalistas

  11. EGR diz:

    Mas vinda donde vem o que se poderia esperar?

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