A “verdade jornalística” existe?

Este artigo do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, intitulado “O crime de corrupção jornalística”, levanta algumas questões interessantes que merecem reflexão. Contudo, o facto de o autor não identificar a que situações concretas se refere dificulta a sua discussão. Vejamos a parte essencial do artigo:

“Infelizmente, em Portugal, a verdade informativa não teve ainda do Estado a proteção que merece e que já foi dispensada, por exemplo, à verdade desportiva, sendo certo que há indícios chocantes do seu aviltamento (em troca de vantagens ilícitas) por parte de quem tem o dever legal e deontológico de a defender. Torna-se, pois, necessária uma proteção qualificada da verdade jornalística, através da criação do crime de corrupção informativa, ou seja, de uma tipificação criminal dos comportamentos ativos e passivos que atentem contra a verdade jornalística em troca de vantagens indevidas para o jornalista ou para o órgão de informação. Aqueles a quem compete a denúncia pública das condutas delituosas devem, também eles, ser objeto de um escrutínio mais intenso da sociedade e dos órgãos públicos que combatem a criminalidade. Também aqui é preciso alguém que guarde a guarda.”

A dificuldade maior reside, a meu ver, no conceito de “verdade jornalística” que o autor compara “a “verdade desportiva”. Ora, salvo melhor opinião não existe uma “verdade jornalística”, no sentido da “verdade” do tribunal que resulta de prova material. No jornalismo, a “verdade” não é um conceito fechado, na medida em que o jornalista não é um juiz ou um polícia à procura de provas materiais sobre “a verdade”. Para o jornalista a “verdade” são os factos que ele conseguiu apurar até ao momento em que escreve, baseando-se nas regras da sua profissão: confirmação das fontes, auscultação de todas as partes com interesses atendíveis, identificação dos factos, separação entre factos e opiniões. No jornalismo a “verdade” de hoje pode não ser a verdade de amanhã se entre hoje e amanhã o jornalista dispuser de novos dados que não tinha antes.

Como escrevi aqui,  “a “verdade” em política não é a “verdade” do tribunal nem  a “verdade” jornalística. No  jornalismo, a “verdade”  é a verdade a que  o jornalista chegou com os dados que recolheu e apresenta no momento  em que  publica.”

A “corrupção informativa” a que se refere o Bastonário existe em situações em que o jornalista se deixa “comprar” ou  “vender” recebendo  benefícios pessoais ou profissionais. Por exemplo, se aceita publicar ou omitir informação para beneficiar ou prejudicar terceiros.

O jornalismo é uma actividade altamente escrutinada pelos cidadãos, pelos poderes e pelas instâncias de regulação.  As normas que regem o jornalismo – Lei de Imprensa, Estatuto do Jornalista, Código Deontológico  – acautelam  situações de falta de rigor, atropelos à lei e às normas profissionais que podem até levar à suspensão ou expulsão da profissão. Não creio, pois, que sejam necessários dispositivos legais  para a “corrupção jornalística”. O que falta ao jornalismo em Portugal são, sim, mecanismos fortes de auto-regulação, aceites e respeitados por jornalistas e  empresas de média. Que actuem quando se impõe que actuem. O que não acontece em Portugal.

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5 respostas a A “verdade jornalística” existe?

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  3. Fernando Pereira, a pergunta que deixei no post não era se existe “corrupção informativa” mas sim se existe “verdade informativa”. A primeira existe mas a segunda, a meu ver, não, pelo menos no conceito em que o bastonário a usou.

  4. Fernando Pereira diz:

    Cara Estrela Serrano existe “corrupção informativa” sim! Desde os títulos que são propositadamente deturpados e deixam de corresponder à notícia propriamente dita, passando pelas notícias fabricadas ou simplesmente inventadas, até aos “fretes” ao poder do momento, o que não falta são exemplos dessa corrupção!

  5. Cara Estrela Serrano penso que contrariamente ao que refere a prática corrente em Portugal é a “corrupção informativa” a que se refere o Bastonário existe em situações em que o jornalista se deixa “comprar” ou “vender” recebendo benefícios pessoais ou profissionais. Por exemplo, se aceita publicar ou omitir informação para beneficiar ou prejudicar terceiros. BASTA IR A UMA BANCA DE JORNAIS PARA PERCEBER

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