Sobre o caso “Bárbara Guimarães/Manuel Maria Carrilho”, pergunta-me uma jornalista quais são os limites entre o que é público e o que é privado na vida das figuras públicas.
Respondi (mais ou menos) assim:
– Em primeiro lugar há que saber o que se entende por figuras públicas. Tomemos as que pertencem ao chamado star system. Essas necessitam e vivem da visibilidade e da projecção das suas vidas profissionais e pessoais. O seu “valor de mercado” depende dessa visibilidade. Isso obriga-as a uma exposição permanente e a cultivarem relações de proximidade, e por vezes de promiscuidade, com as revistas e jornais vocacionados para a informação dita “de sociedade”. É uma relação de interesse para ambas as partes: as revistas e jornais necessitam das figuras públicas do espectáculo e da televisão porque elas lhes garantem audências e as figuras públicas necessitam de aparecer e por isso se expõem às objectivas dos fotógrafos e às câmaras da televisão. Tudo corre bem para ambos os lados até correr mal.
Os jornalistas das revistas e jornais que cultivam a informação sobre o espectáculo, a televisão e a vida social das figuras públicas estão obrigados a cumprirem as regras da profissão, desde logo, a selecionarem, segundo critérios de interesse público, a informação que chega ao seu conhecimento. Mesmo trabalhando em jornais e revistas menos “sérios” ou mais “leves” os jornalistas não estão dispensados do cumprimento do código deontológico que rege a actividade jornalística. Não são ou não devem ser, “pés de microfone”, obrigados a publicarem tudo o que lhes é dito. Para isso não são precisos jornalistas.
Ora, se determinadas figuras públicas decidem não impôr limites à exposição das suas vidas privadas e íntimas, isso não obriga os jornalistas a ultrapassarem também os limites que a ética e a deontologia do jornalismo lhes impõem. Esses limites são ditados pelos seus deveres profissionais que são a garantia da legitimidade e credibilidade que lhes são conferidas pelo facto de serem jornalistas.
É certo que a fronteira entre o privado e o público nas figuras públicas do mundo do espectáculo e da televisão é mais fluída do que no cidadão comum pelos motivos atrás expostos, desde logo porque a exposição pública é parte e condição da sua vida profissional. Mas mesmo para estas pessoas, há uma esfera para além do público e do privado – a esfera íntima – que abrange a sexualidade, a religião, a família – que deve permanecer fechada à divulgação pública.
São os jornalistas que tornam público o que nós conhecemos sobre a vida pública, privada e íntima das figuras públicas. A responsabilidade da publicação é dos jornalistas. Digam as figuras públicas o que disserem sobre as suas vidas íntimas ou dos seus familiares, a responsabilidade de quem publica não pode ser descartada.
Há ainda outro tipo de figuras públicas: as da área política. Tema par outro post…