A agonia do governo e a diluição das esquerdas

Enquanto o governo agoniza entre manifestações de polícias, greves dos magistrados do Ministério Público e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, manifestações de professores contra provas humilhantes ditas de avaliação, e os reitores das universidades públicas fartos de desconsiderações fecham a porta ao diálogo, o Presidente dá sinal de vida com o envio da diploma da convergência do regime de pensões para o Tribunal Constitucional, depois de ter deixado passar em claro os ataques e a chantagem sobre o mesmo Tribunal.

Mas o que verdadeiramente perturbou o governo foi a sessão da Aula Magna presidida por Mário Soares com a presença de destacadas figuras de vários quadrantes políticos e intelectuais. Já muito se disse sobre essa sessão, sobretudo muito se criticaram os avisos de Mário Soares sobre a “violência que aí vem”. Até o ministro Portas veio armar-se em “homem de Estado” esquecendo-se da violenta subida dos juros da dívida causada pela sua demissão  “irrevogável”…

Mas a questão mais relevante, quanto a mim, desta conjugação de acontecimentos reside no facto de o governo surgir perante os portugueses como uma entidade em dissolução enquanto, por outro lado, os partidos da oposição se apagam e se diluem em gestos simbólicos como que à procura de  um líder e de um rumo, de que a sessão da Aula Magna é um espelho e um reflexo….

Soares e SócratesO  mais surpreendente é o facto de as vozes que melhor traduzem e assumem o discurso do descontentamento e da não resignação serem as de Mário Soares e José Sócrates, ambos actuando fora do quadro institucional partidário, sem complexos e livres de interesses. Nenhum deles se encontra refém de um partido, de um cargo, ou de um calendário eleitoral. Sendo muito, essa liberdade de que disfrutam não diz, porém, tudo. É o carisma que caracteriza ambos que leva a  que sejam escutados e seguidos. E que incomoda tanto e tantos…

José Sócrates não foi à Aula Magna. A meu ver, fez bem, independentemente dos motivos que o levaram a não comparecer. Apesar da presença das “esquerdas” e de algumas “direitas”, é ainda cedo para partilhar aplausos e vaias com tantos os que naquele mesmo lugar, ou noutros mais solenes, ainda há bem pouco se uniram para o derrubarem.

Sócrates não foi á Aula Magna mas a  entrevista que deu ao Jornal de Notícias é um documento e um testemunho que vale a pena conhecer.

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4 respostas a A agonia do governo e a diluição das esquerdas

  1. Antónimo diz:

    EGR, Comentários lapidares como o de Sobrinho Simões estou eu farto de ouvir aos líderes da esquerda – sem que a comunicação social, que leva Rui Tavares, ao colo lhes ligue.

    Estela Serrano, Até Sócrates já recusou o mantra “socialista” da alegada aliança entre PCP, BE e Direita aquando do PEC IV.

  2. As narrativas ,para mim em circuito fechado,que animam as hostes dos que falam, falam mas não fazem nada dão razao ao pensador que afirmou que quem tem uma profissão de dizer-professor,economista,advogado, jornalista,comentador, tem a tendencia a confundir o acto com a palavra :Mas não se enganem que a palavra não é o acto. Aqui no velhinho e amigos penso que se aplica, alias sempre se aplicou com o bochechas: falam,falam mas…

  3. jose neves diz:

    Contudo há ferrenhos admiradores sócratistas, mais que eu sou e sou muito, que entendem que Mário Soares anda a fazer o mesmo que os apoiantes do governo querem vender ao povão ignorante: que o “velhote” já não sabe o diz, que apela à violência e isso é intolerável e irresponsável em democracia.
    Eu penso que, face ao apagado e sem chama Seguro, alguém tem de preencher o vazio e concordo com a ideia deste post, tanto MS como Sócrates como António Costa estão construindo ideias para um discurso com propostas definidas e claras para uma governação futura de afirmação e salvamento do país sem subserviências. Com os custos e sacrifícios necessários em total respeito pela vontade do melhor bem-estar possível para o povo.
    E na actual situação já não chegam palavras mansas de respeitinho mas sim coragem de estancar a corrupção democrática e colocar a democracia nos carris.
    A quem se bateu sempre, com elevado prejuízo pessoal, em prol da democracia e liberdade alguém insinuar que agora estará contra a democracia porque avisa os poderes sobre a violência que a imoral violência do Estado pode provocar, é não conhecer o estado de alma actual da maioria dos portugueses.

  4. EGR diz:

    Na verdade é surpreendente que não seja um partido político a assumir o combate contra entre grupo de gente que nos governa,ou melhor, nos desgoverna.
    Desde que li a entrevista do Prof. Sobrinho Simões ao Publico, da passada sexta-feira, que não me sai da cabeça a frase lapidar com que caracterizou a situação actual:”este governo rebentou com tudo”
    E quanto a Paulo Portas continua a ser um produtor de frases para títulos de primeira página de um qualquer jornal sensacionalista.
    Claro que Paulo Portas gosta de armar em homem de estado mas isso é por pensar que somos todos parvos.

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