Jornalismo “com o rabo de fora”

Qual é o valor-notícia deste título e mesmo da informação que o suporta?

Padre vestia-se de mulherA informação consta no acórdão do Tribunal do Fundão, um documento com mais de 80 páginas, cuja cópia só foi disponibilizada pelos juízes esta quinta-feira. Na segunda-feira, os magistrados optaram por ler apenas uma súmula da decisão. (Público, 5 Dezembro, 2013, edição online)

Não sei se  no plano judicial a descrição pormenorizada das imagens encontradas no computador do padre e o relato de outros pormenores como “o padre reconheceu em tribunal ter-se deitado na cama de alguns dos menores, mas garantiu que ficava “com o rabo de fora” e nunca se descalçava” tinham mesmo de constar do acórdão.

Mas  do ponto de vista jornalístico noticiar que o padre do Fundão se vestia de mulher e se retratava (ou deixava retratar) em “poses eróticas” e na cama ficava com o “rabo de fora”,  não acrescenta nada de substantivo ao conteúdo da notícia da condenação do padre e só pode ter objectivos sensacionalistas.

Ler ou ouvir descrições desta natureza num jornal ou televisão tabloides  seria sempre inaceitável, mas seria previsível. Porém, num jornal  como o Público, ainda que apenas na edição online, é no mínimo inesperado.  De facto, não se compreende a opção de fazer desses pormenores o principal enfoque da notícia, chamando um deles para título.

Chamar a esta peça “jornalismo com o rabo de fora” não será neste caso desadequado.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Jornalismo, Justiça, Sociedade, Sociologia dos Média. ligação permanente.

2 respostas a Jornalismo “com o rabo de fora”

  1. Tem razão, Pedro. A intenção não era desvalorizar o online mas reconheço que a frase leva a essa interpretação. A ideia que tentei expressar é que no jornal impresso na medida em que tem uma presença física, material, as imagens (e os títulos), fixam-se mais fácil e duradouramente enquanto que na internet os milhares, milhões de páginas que passam pelos nossos olhos desvanecem-se mais facilmente…Bem sei que a net é quase como a natureza nada se perde…

  2. Pedro diz:

    Cara Estrela Serrano,

    Concordando consigo, não posso deixar de ‘protestar’ contra o penúltimo parágrafo. Quando escreveu “num jornal como o Público, ainda que apenas na edição online”, a Estrela desvalorizou – admito que inadvertidamente – o jornalismo online, criando uma espécie da ranking de nobreza de meios. Parece-me que isto faz pouco sentido, sobretudo com a actual convergência de meios.

    O Público tem de ser o Público em todos os suportes em que está presente. Cometer uma falha no online é tão grave como no papel. Porventura, essa falha, por ter sido online, terá até chegado a mais pessoas.

    Cumprimentos,
    Pedro M.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s